A primeira aula do segundo semestre com Irmão Telmo, mau sinal. Como desde o início do ano, Patinho, Boca, Caruncho e Rolha sentaram-se lado a lado, na terceira fila de carteiras, e afivelaram a máscara de inocentes. Não convenceram. Fiel à ameaça de pouco antes, no pátio, Irmão Telmo os separou. Fez a chamada, fechou a caneta Parker 61, prendeu-a na manga e sorriu nervoso.
Deu as boas-vindas à turma, recomendou mais concentração e empenho e, em seguida, se desbaratou – enfiou no mesmo saco as artimanhas do demônio, a disputa entre Jânio e Lott, os males do fumo e a cruzada de Plínio Salgado. De matemática, a matéria do horário, nem dois mais dois. Ninguém sabia direito qual tinha sido a cruzada de Plínio Salgado, alguém levantou o dedo, pediu detalhes.
Irmão Telmo soqueou o ar, gritou Grande África, Grande África! E, suando apesar do frio, falou da revolução de 30, do Estado Novo e do movimento integralista.
Numa pausa, Patinho, decidido a atingir Rolha, que se declarava monarquista, perguntou ao Irmão qual o melhor regime, a realeza ou a república. Depende, ele disse, entre um rei mau e um presidente bom, ponto para a república; porém, entre um presidente mau e um rei bom...
Patinho insistiu, e entre um rei bom e um presidente bom, qual o melhor? Irmão Telmo endureceu o olhar e encerrou o papo, a hora avança, vamos à matemática, onde paramos no primeiro semestre?
No intervalo para a segunda aula, de francês, Patinho, Rolha, Caruncho e Boca dividiram um cigarro no corredor dos banheiros. Um deles previu que Irmão Telmo, cada dia mais destrambelhado, terminaram em camisa de força.
- É a falta de mulher – Caruncho diagnosticou. – Esse negócio de voto de castidade não é pra qualquer um.
- Só para os santos – Rolha disse. – Para meia dúzia.
Boca soltou fumaça pelo nariz, aos poucos, como nos filmes americanos.
- Longe de mim a santidade. Ainda mais agora que conheci o Rio de Janeiro e minha prima carioca. A cara da Kim Novak. Se vocês soubessem o que fizemos... E, nas férias de fim de ano, ela vem a Curitiba. Vai ficar lá em casa.
- Bom – Caruncho deu a última tragada -, estamos em agosto, você tem tempo de mandar construir um galinheiro.
A tirada agradou, até Boca riu. Mas logo contra-atacou: - Que inveja! Vocês não passam de uns viergenzinhos frustrados, cheios de espinhas.
Patinho o enfrentou: - Ora, Bocão, você já disse que quer ser poeta porque a verdade está na poesia.
- E daí?
- Daí que você vai ser sincero com a gente: tua prima te desvirginou ou vocês ficaram no bate-bola?
- Vou além – Rolha equilibrou-se na ponta dos pés. – Essa prima existe de verdade ou é uma foto manchada da Kim Novak?
Boca encarou o céu: - Grande Alá, eu, o habitante mais sagaz e sensível desta tua cidade, pergunto: o que diz o Corão sobre os adolescentes? Devem ser tratados como infiéis ou merecem benevolência?
Aplaudido enfim pelos cupinchas, convidou-os a matar as outras aulas do dia. . Proposta aceita por aclamação, os quatro escaparam. Foram beber cuba-livre no bar da esquina.
- Eu brindo – Rolha levantou o copo –à mãe do Boca, que sábado faz 40 anos.
O candidato a poeta não gostou: - Ideia infeliz, brindar à velhice.
- Então nos conte de você e da prima do Rio.
- Pra quê? Vocês não acreditam.
- Conte assim mesmo – Caruncho pediu. – No fim a gente vota, verdade ou mentira?
Com toda calma, Boca tomou um bom gole, olhou em torno. Senhor do momento. No limite do suspense, desenhou um par de peitos no ar e, lábios de sátiro, começou a deliciar os companheiros.
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| Acreditar ou não no Boca, eis a questão para Rolha, Patinho e Caruncho |
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Em compensação
Quem viveu a Guerra Fria – a tensão permanente entre Estados Unidos e União Soviética, as duas potências armadas de bombas atômicas até os dentes -, que perdurou do fim da Segunda Guerra Mundial, em abril de 1945, até a queda do Muro do Berlim, em novembro de 1989, certamente perdeu a conta do número de situações em que o fim da civilização ocidental pareceu iminente. Mas, como sempre acontece, o medo não impedia a bolação de piadas. Como a que se segue e que, a meu ver, não perdeu a graça – a graça inteligente:
Deu-se que John, jovem americano simpatizante da URSS, foi passear em Moscou. Ivan , o cicerone, desdobrou-se para mostrar-lhe o melhor da capital. Depois de um dia de muitas caminhadas, levou-o à estação central do metrô, um dos orgulhos do regime comunista.
- Camarada John – Ivan disse – aqui, a cada três minutos, três minutos exatos, passa um trem do sul para o norte, outro do norte para o sul, um do leste para o oeste e outro do oeste para o leste.
- Mas camarada Ivan – John retrucou -, estamos aqui há cinco minutos e não passou nem um trem.
Ivan, na bucha:
- Em compensação, vocês perseguem os negros.

