Eu trabalhava na sucursal carioca da Folha de S. Paulo, o chefe de reportagem me escalou para entrevistar Elis Regina e Ronaldo Bôscoli, que estavam de casamento marcado (o Google diz que foi em 1967, então foi). Ela vinha ao Rio acertar os detalhes da cerimônia, o chefe me passou o telefone do noivo e a clássica recomendação: vire-se. Liguei, Ronaldo, desmentindo a fama de grosso, me atendeu bem. Marcou a entrevista para as 11 horas de sábado, e me deu seu endereço, em Ipanema.
O fotógrafo e eu chegamos pouco antes das 11, o próprio Ronaldo nos abriu a porta. Disse que Elis não demoraria a vir e sentou-se diante de uma máquina de escrever portátil - a mesa das refeições, redonda, era também a mesa de trabalho. A seus pés (memória ou fantasia?) se esparramava um cachorro de bom tamanho.
Tentei um papo descontraído - como é isso de de repente um solteirão (Ronaldo era 16 anos mais velho que Elis), que namorou as principais cantoras do Brasil, se casar até no religioso? – ele balbuciou qualquer coisa e começou a datilografar. O silêncio só não pesou porque surgiu uma senhora – minha sogra, Ronaldo apresentou – que nos deu atenção. Assim, enquanto o fotógrafo clicava, eu entrevistava a mãe de Elis. “Minha filha”, ela disse, “já é a maior cantora do Brasil.”
Nesse exato momento, a estrela apareceu. Beijou o noivo, cumprimentou os visitantes, repreendeu a mãe: “Não, senhora, a maior cantora do Brasil é a Elisete Cardoso”. E, para nós: “Por favor, não liguem, mãe é mãe.” Deixou-se fotografar ao lado do quase marido e da mãezona, disse que a fama de mulherengo de Ronaldo não a incomodava, pois sabia que ele hoje era outro, e sugeriu que eu e o fotógrafo a acompanhássemos até a Capela Mayrink, na Floresta da Tijuca, onde seria o casamento. Precisava medir a nave para encomendar a decoração, nós a ajudaríamos e, ao mesmo tempo, arremataríamos a entrevista.
Subimos para a floresta no fusca de Elis (ou seria de Ronaldo?). Medimos a nave da capela, voltamos pela Avenida Niemeyer, paramos na casa em que o casal moraria (“esta casa é do Juca Chaves”, ela contou, “nós alugamos”) e descemos de volta para Ipanema. Conversando sempre. Então, já na praça em que Ronaldo morava, um ônibus elétrico (chifrudo, no jargão popular) fechou o fusca. Foi o que faltava para aquele sábado se tornar inesquecível. Num pulo, Elis pôs meio corpo para fora do carro e gritou para o motorista abusado: “Só porque sou mulher? Vá tomar atrás do saco.”
Reacomodou-se ao volante, se dobrando de rir: “Sou ou não sou uma moça fina?”
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O bom egoísmo
Cedo descobrimos que o egoísmo é um sentimento fortíssimo, invencível por mais que o enfrentemos. O que nem todos percebemos é que há o bom egoísmo, como há o bom colesterol. O bom egoísmo aflora nos atos de amor e doação, como por exemplo os praticados pelos voluntários que socorrem os atingidos por uma catástrofe. Basta ouvi-los: eles falam com emoção do prazer e da alegria de ajudar o outro, da sensação de plenitude ao fazer algo para alguém sem esperar alguma vantagem. Ou seja: prevalece o “eu”, o gozo de ter-se dado. E, ao contrário do que possa parecer, é ótimo que seja assim, pois esse tipo de egoísmo nos torna melhores. (Dentro desse raciocínio, já imaginaram o tamanho do egoísmo de uma Teresa de Calcutá? Um gigante, salve ele).
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A Merkel de Berlusconi
Que o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, é meio (ou inteiro?) bandido, a gente sabe há muito tempo. Mas, reconheça-se, é um bandido engraçado. Num telefonema interceptado pela Justiça, ele chama a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, de bunduda incomível. Não dá para deixar de rir. Longe das feministas radicais, naturalmente.
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Primavera
Daqui a seis dias, termina o inverno. Muitos preferem o Rio no outono, eu na primavera. Que chegue esbanjando beleza, aleluia.
