sábado, 17 de setembro de 2011

Elis

Eu trabalhava na sucursal carioca da Folha de S. Paulo, o chefe de reportagem me escalou para entrevistar Elis Regina e Ronaldo Bôscoli, que estavam de casamento marcado (o Google diz que foi em 1967, então foi). Ela vinha ao Rio acertar os detalhes da cerimônia, o chefe me passou o telefone do noivo e a clássica recomendação: vire-se. Liguei, Ronaldo, desmentindo a fama de grosso, me atendeu bem. Marcou a entrevista para as 11 horas de sábado, e me deu seu endereço, em Ipanema.
O fotógrafo e eu chegamos pouco antes das 11, o próprio Ronaldo nos abriu a porta. Disse que Elis não demoraria a vir e sentou-se diante de uma máquina de escrever portátil - a mesa das refeições, redonda, era também a mesa de trabalho. A seus pés (memória ou fantasia?) se esparramava um cachorro de bom tamanho.
Tentei um papo descontraído - como é isso de de repente um solteirão (Ronaldo era 16 anos mais velho que Elis), que namorou as principais cantoras do Brasil, se casar até no religioso? – ele balbuciou qualquer coisa e começou a datilografar. O silêncio só não pesou porque surgiu uma senhora – minha sogra, Ronaldo apresentou – que nos deu atenção. Assim, enquanto o fotógrafo clicava, eu entrevistava a mãe de Elis. “Minha filha”, ela disse, “já é a maior cantora do Brasil.”  
Nesse exato momento, a estrela apareceu. Beijou o noivo, cumprimentou os visitantes, repreendeu a mãe: “Não, senhora, a maior cantora do Brasil é a Elisete Cardoso”. E, para nós: “Por favor, não liguem, mãe é mãe.” Deixou-se fotografar ao lado do quase marido e da mãezona, disse que a fama de mulherengo de Ronaldo não a incomodava, pois sabia que ele hoje era outro, e sugeriu que eu e o fotógrafo a acompanhássemos até a Capela Mayrink, na Floresta da Tijuca, onde seria o casamento. Precisava medir a nave para encomendar a decoração, nós a ajudaríamos e, ao mesmo tempo, arremataríamos a entrevista.
Subimos para a floresta no fusca de Elis (ou seria de Ronaldo?). Medimos a nave da capela, voltamos pela Avenida Niemeyer, paramos na casa em que o casal moraria (“esta casa é do Juca Chaves”, ela contou, “nós alugamos”) e descemos de volta para Ipanema. Conversando sempre. Então, já na praça em que Ronaldo morava, um ônibus elétrico (chifrudo, no jargão popular) fechou o fusca. Foi o que faltava para aquele sábado se tornar inesquecível. Num pulo, Elis pôs meio corpo para fora do carro e gritou para o motorista abusado: “Só porque sou mulher? Vá tomar atrás do saco.”
Reacomodou-se ao volante, se dobrando de rir: “Sou ou não sou uma moça fina?”

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O bom egoísmo
Cedo descobrimos que o egoísmo é um sentimento fortíssimo, invencível por mais que o enfrentemos. O que nem todos percebemos é que há o bom egoísmo, como há o bom colesterol. O bom egoísmo aflora nos atos de amor e doação, como por exemplo os praticados pelos voluntários que socorrem os atingidos por uma catástrofe. Basta ouvi-los: eles falam com emoção do prazer e da alegria de ajudar o outro, da sensação de plenitude ao fazer algo para alguém sem esperar alguma vantagem. Ou seja: prevalece o “eu”, o gozo de ter-se dado. E, ao contrário do que possa parecer, é ótimo que seja assim, pois esse tipo de egoísmo nos torna melhores. (Dentro desse raciocínio, já imaginaram o tamanho do egoísmo de uma Teresa de Calcutá? Um gigante, salve ele). 

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A Merkel de Berlusconi
Que o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, é meio (ou inteiro?) bandido, a gente sabe há muito tempo. Mas, reconheça-se, é um bandido engraçado. Num telefonema interceptado pela Justiça, ele chama a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, de bunduda incomível. Não dá para deixar de rir. Longe das feministas radicais, naturalmente.

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Primavera
Daqui a seis dias, termina o inverno. Muitos preferem o Rio no outono, eu na primavera. Que chegue esbanjando beleza, aleluia.   

sábado, 10 de setembro de 2011

Em família

 A crônica abaixo foi publicada em meados de setembro de 1997, duas semanas depois da morte da princesa Diana. Ao reencontrá-la, dias atrás, resolvi oferecê-la, sem qualquer alteração, aos amigos do BP. Ao passado, portanto:


A vinda do papa ao Rio, o real e a dentadura, a regulamentação do aborto em caso de estupro ou de risco de vida da mãe, a escolha de Atenas como sede das Olimpíadas de 2004, a nova lei eleitoral, as últimas novidades da informática. Os assuntos se misturavam, o almoço familiar corria animado. Às tantas, alguém mencionou os funerais de Diana, visto ene vezes por todos.
Como acontece quando se comenta um filme de sucesso, cada um lembrou a cena que mais o tocara – a reverência da rainha diante do caixão da ex-nora, o discurso certeiro de Charles Spencer, o canto contido de Elton John, os aplausos do povo à passagem do féretro, a cabeça sempre baixa do príncipe William, futuro rei.
A rememoração do espetáculo fúnebre foi interrompida pela única criança da casa, uma garota de cinco anos. Afinal, ela perguntou compenetradíssima, a princesa estava mesmo grávida?
Os adultos se olharam esbugalhados. Onde você ouviu isso?, a mãe cobrou. No colégio, a pequena respondeu. E insistiu: Diana carregava ou não o irmão do rei na barriga? Maneiroso, o pai lembrou que Os 101 Dálmatas, o filme com Glenn Close, estava pronto para rodar na sala de TV, você não quer assistir de novo? Ela queria. Vocês só falam bobagem,  a filha acusou, eu prefiro ver a Cruela, adeus.
Livres da enxerida, mas a partir do que ela tinha perguntado, os adultos repisaram a história, pingada nos jornais, de William ganhar um irmão mestiço e muçulmano. Um primo, o intelectual da família, fingiu apreensão: anteontem a irriquieta Margareth, ontem os Beatles, hoje uma lady mundana, humanitária e marqueteira, amanhã um herdeiro moreno, de cabelo crespo; em que beco o grande império vai parar?
Houve risos, mas fracos, era hora da sobremesa e as atenções se concentraram no pudim de clara que a empregada acabara de pôr no centro da mesa. Foi aí que a garota, saltando de surpresa da sala de TV, disparou outras duas perguntas: e se Diana tivesse na barriga não um menino, mas uma menina? E se a menina e o rei se apaixonassem, como os irmãos da novela do canal mexicano?
Fez uma careta e desapareceu, voltou aos dálmatas. Um incesto real?, escandalizou-se a prima solteira, que se orgulhava de ter recusado um egípcio de Alexandria, talvez parente dos Al Fayed. A mãe da mãe da garota, formada em Letras, mas do lar, indagou: há incesto em Shakespeare? Niguém se lembrava. Esperto, o intelectual da família fechou a questão: em Shakespeare há de tudo, o mundo, o céu, o inferno e mais um pouco. O avô balançou a cabeça e repetiu a sobremesa. Dos deuses esse doce, disse se lambendo.
Da sala de TV, vinham latidos inteligentes.

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Segundo pesquisas, em julho 68% dos britânicos já admitiam o casamento do príncipe Charles com Camilla Parker-Bowles, e que, portanto, mesmo sendo a mocinha da história, Diana terminaria derrotada pela rival. De repente, vem a morte e põe tudo de pernas para o ar. Agora, qual o futuro de Camilla?
No meio de todo esse drama, fica apenas uma certeza: Charles virou definitivamente sapo. Case-se ou não com a amante, sente-se ou não no trono, não tem a mínima chance de cura.

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11/9/2001
  Eu trabalhava em casa, o telefone tocou, ligue a TV, disse minha então mulher, o mundo está acabando em Nova York.  

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Sinceridade
     Há dias, dois fabricantes de agrotóxicos admitiram publicamente que seus produtos matam. Não é de apalermar? Nessa batida, a sinceridade acabará como regra nº 1 nos grandes negócios. Reajamos enquanto é tempo, temos uma tradição de esperteza a preservar.

sábado, 3 de setembro de 2011

Brasiliana

Em que momento o Peru se ferrou?, indaga Mario Vargas Llosa em Conversa na Catedral. Às vésperas de mais um 7 de Setembro, repudio o ufanismo oco, o cacoete de quem está no poder, e pego emprestada a pergunta do romancista peruano. Quando o Brasil tomou o caminho da perda? Já durante a primeira missa ou ao ser dividido em capitanias hereditárias? Às margens do Ipiranga ou com o golpe militar de 15 de novembro de 1889?
Quando, quando? Em que encruzilhada caímos na vereda cheia de pedras e desníveis? Em que situação a consciência do provincianismo incomodou tanto que passamos a repetir baboseiras como somos os maiores, conosco ninguém pode, nada como ser brasileiro?
O jeitinho, esse vírus invencível, ante que obstáculo o adotamos? Que ato de desumanidade provocou horror tão grande, que passamos a nos proclamar um povo cordial? Frente a que humilhação inventamos que somos livres de preconceitos?
Que manifestação de insegurança nos levou a nacionalizar Deus? Que presente nos frustrou a ponto de nos considerarmos o país do futuro? Um futuro jamais alcançado, ilusório como a linha do horizonte.
Pois diante desse nunca-chegar, cansado e descrente da ideia de que amanhã será melhor, faço um pequeno pedido aos nossos poderosos: não exagerem na mentira; mintam o estritamente necessário, só mesmo em casos extremos. Quem sabe assim, enfim nos aproximemos dos países mais bem-sucedidos, aqueles que, por inveja, desdenhamos.

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(Se, depois de ler o meu desabafo, você estiver papagaiando velhos lamentos do tipo ah, se tivéssemos sido colonizados pelos ingleses, ou nosso problema é esse povinho, cale a boca. Simplesmente, você não entendeu nada.)

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De qualquer modo, é inegável que os governantes de hoje, eleitos pelo voto popular, mentem menos (pouco menos) que os estrelados do regime militar, ainda tão próximo. Naquele tempo, enquanto nos porões os gritos dos torturados se multiplicavam, aqui em cima os palacianos diziam sem  gaguejar que o Brasil era uma ilha de calma e prosperidade. Ame-o ou deixe-o, os mais velhos se lembram. E, por favor, não esqueçam. Não esqueçam e, sempre que couber, ponham os jovens a par do terror de ontem.
Terror muitas vezes embrulhado no cinismo. “Nosso sonho mesmo”, me disse em plena tirania um brigadeiro linha-dura, “é voltar para os quarteis. Infelizmente, o povo ainda não nos liberou.” Coitado, morreu antes de o último general presidente deixar o Palácio do Planalto pela porta dos fundos.

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Hoje devemos pensar com menos pressa nos sem-Brasil, milhões de pessoas que vivem (vivem?) em circunstâncias muito piores que os sem-terra, os sem-teto etc. Os sem-Brasil, ou sem-tudo, não desfrutam da mais mínima cidadania. Não têm condição de comer nem um prato de farinha.

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Também é uma boa hora para lembrarmos Darcy Ribeiro: “Dói (cito de memória) perceber que um país privilegiado como o Brasil não deu certo. Como isso aconteceu, como?”

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Citando outro brasileiro de respeito, Vinícius de Moraes: Vontade de beijar os olhos de minha pátria/De mimá-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos.../Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias/De minha pátria, de minha pátria sem sapatos/E, sem meias, pátria minha/Tão pobrinha.

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Tadinhos
E os doutores do Judiciário estão contrariados porque o orçamento federal de 2012 não prevê reajuste salarial para eles. Tadinhos, sempre tão esquecidos, o governo só dá atenção aos aposentados do INSS.

       No mais, vale recorrer à Bíblia: “O rico comete injustiça e ainda reclama; o pobre é injustiçado e ainda pede desculpas.” (Eclo, 13,3)

sábado, 27 de agosto de 2011

Comeu?

Cabelos úmidos, pele cheirosa
Com menos de um ano de jornalismo - um foca, na gíria da profissão - ele tremeu ao saber que iria entrevistar Fulaninha Silva, cantora de nome nacional e que, havia seis semanas, tinha sua moderna interpretação de um clássico de Noel Rosa no topo da parada de sucessos. O G. caiu doente, o chefe informou, e nós precisamos dessa entrevista pra amanhã, sinto muito, você foi o escolhido, é a sua chance de mostrar a que veio. Disse que o foca iria sozinho, sem fotógrafo, Fulaninha fora fotografada na noite anterior, fez ligeiras recomendações e soltou uma risada satânica.
Ao chegar à casa de Fulaninha, o escolhido ainda ouvia a risada do chefe. Passou por um segurança, entrou na sala conduzido por uma empregada de uniforme, sentou-se no sofá indicado. A cantora apareceu logo, os cabelos úmidos, a pele cheirosa. Sussurrou oi, você é tão jovenzinho, sentou-se à esquerda do repórter e, ligado o gravador, começou a falar de si - a vocação, a carreira, o sucesso, os fãs, as viagens.
A pele cheirosa, os cabelos úmidos, a voz rouca. De repente fez uma pausa, saltou até a vitrola (era no tempo das vitrolas), pôs no volume certo a canção que todo o país cantava e voltou deslizante para o sofá. Mas não se sentou. Ficou de pé em frente ao nosso herói, os quadris na altura dos olhos dele, a ondular o corpo bem devagar, enquanto acompanhava baixinho o que o disco – ela – cantava.
E agora, pensou o jovenzinho, o que faço? Avanço ou me seguro, me seguro ou avanço?  O medo de estar fantasiando a situação, de agarrar a dona e ser rechaçado, que é isso, garoto, enlouqueceu?, de ser denunciado por ela e perder o emprego conseguido a duras penas, segurou-se. Fingiu a mais extrema naturalidade, encerrou a entrevista com ar de santo.
Chegou ao jornal taquicárdico e, antes de se pôr a trabalhar, tentou contar ao chefe o que vivera. O cara o interrompeu:
- Comeu?
- Nã..., eu...
Levou um tabefe nas costas:
- Ora, meu querido, que bobeada, todo mundo come.
Ouviu a risada satânica, odiou-se. Sentiu-se o último dos focas.


O general e a alemãzinha
Enfim o assessor apareceu na sala de espera e alegrou os seis repórteres que estavam ali desde cedo: o general ia, sim, falar à imprensa, mas, por favor, tivessem um pouco mais de paciência, questão de dez-quinze minutos no máximo, só o tempo pro general despachar uns papeis importantes.
Quinze minutos a mais, não fazia diferença, na troça os repórteres ensaiaram aplausos. O assessor se retirou, apareceu o moço do cafezinho. Os da imprensa se serviram e, aliviados, mudaram de papo, os problemas do governo, em pauta enquanto esperavam o assessor, deram lugar a futebol, cinema e, adivinhem, mulher. Registre-se o fato raríssimo: eram seis rapazes, nenhuma menina para inibi-los.
E no capítulo mulher, o relato mais animado coube a um  repórter de São Paulo, dois dias antes ele percorrera um bom pedaço da Transamazônica, obra monumental do regime militar, ele e outros jornalistas convidados, entre os quais uma catarinense radicada no Rio, meus amigos, que fêmea, alemãzinha, vocês não fazem ideia, um banquete, e não é que a gracinha colou em mim, eu, o feioso do grupo, e ela colou em mim, e eu nela, claro, nos tornamos inseparáveis, pra inveja dos outros machos, quando chegou a noite nós dois...
Aí o ouvinte mais atento ao relato, repórter de um jornal carioca, cortou o colega paulista:
- Comeu?
- Não, mano, não comi, sabe que ela...
- Puxa, cara, que susto, ela é minha mulher.
- Voc..., eu...
O general entrou na sala, a paz brilhou no céu da pátria.

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No avião
É de manhã e de repente você, que há anos não adoece, percebe que algo não vai bem. Como, com o correr do dia, os sinais de desequilíbrio orgânico se intensificam, você entra em contato com o médico e marca consulta ainda para aquela tarde. Preocupado, chega ao consultório antes da hora combinada. O médico o atende com algum atraso e, após minucioso exame, informa, o quadro não é tão grave, mas foi ótimo você ter me procurado logo, se tivesse deixado para depois, as coisas poderiam complicar.
Sob controle, você volta para casa e, obediente ao médico, inicia um período de repouso. E assim, na chatice do nada fazer, embora já sinta alguma melhora, você não deixa de pensar na fragilidade humana, na precariedade da vida. Pensamento idêntico ao que ocorre a todos que estão a bordo de um avião, mesmo aos que se gabam de não ter medo de voar: tudo ótimo, mas nada impede que daqui a dois segundos a gente se espatife lá embaixo.

sábado, 20 de agosto de 2011

Getúlio, Jânio etc

Com o pai e a mãe, eu estava em Campo Grande, principal cidade de Mato Grosso, bem mais movimentada que a capital, Cuiabá (como vocês veem, antes, bem antes, da criação de Mato Grosso do Sul). Certa noite fomos ao cinema, não para assistir a algum filme, mas para ouvir um deputado carioca que vinha percorrendo o Brasil em campanha contra a corrupção do governo federal.
Apresentado à platéia, o deputado levantou-se  e, as lentes grossas refletindo a luz da sala, soltou a voz grave: “Vou lhes falar de um personagem que tem crista de galo, rabo de galo, porte de galo, canta de galo, porém não é galo.” Daí em diante, arrasou. Nome do deputado: Carlos Lacerda. Nome do falso galo: Getúlio Vargas, presidente da República.
De volta a Curitiba, onde morávamos, todas as noites o pai ligava o rádio. Da Rádio Globo, Lacerda disparava sua metralhadora de mil e uma balas e eu, na leveza dos meus 10 anos, começava a perceber que tinha nascido num país difícil. A situação piorou quando Lacerda e o major da Aeronáutica Rubens Vaz foram atacados a tiros, o atentado da Rua Toneleros.
Vaz morreu, Lacerda, ferido no pé, redobrou os ataques. Os adultos em meu redor só falavam  em mar de lama, Gregório Fortunato, República do Galeão. Até que no dia 24 de agosto – 57 anos atrás – calaram-se atônitos. O presidente Getúlio Vargas se matou com um tiro no coração, anunciava o noticiário em edição extraordinária. O pai, militar antigetulista, não segurou o choro. Suas lágrimas marcaram meu primeiro espanto político.

Quase 10 anos mais tarde, em abril de 64, dias após os militares mergulharem o país nas trevas, eu e alguns colegas da Faculdade Nacional de Filosofia paramos diante do busto de Getúlio na Cinelândia e, sem pressa, lemos a carta-testamento. Desafio ingênuo de jovens quase imberbes. E, mesmo agindo de coração, eu já desconfiava que, por ter sido ditador, o presidente suicida não merecia minha admiração. Como não merece qualquer outro ditador, de qualquer ideologia.

***

Em 1961, sete anos e um dia depois do suicídio de Getúlio Vargas, estava eu na cadeira do barbeiro aparando minha (acreditem) vasta cabeleira e ouvindo no rádio o Rancho das Flores (Jesus, alegria dos homens, de Bach, com letra de Vinícius de Moraes – e agora aqui temos o bom crisantemo, seu nome cantemos...), de repente a música é interrompida e o locutor anuncia a renúncia do presidente Jânio Quadros.
Janista doente, embora, menor de idade, ainda não votasse, me recusei a aceitar o que ouvira. Impossível, mentira, conspiração. Saí do barbeiro enlouquecido, claro que o governo desmentiria em seguida a terrível notícia, coisa de jornalista safado, vendido.
O desmentido não veio. Jânio embarcou para Londres, e eu fiquei a remoer meu segundo espanto político. Logo entendi que tinha acreditado num irresponsável, um irresponsável que sonhara em ser ditador. E que, por isso, não merecia meu respeito. Como não o merece qualquer outro candidato a ditador, de qualquer ideologia.

***

Já maduro, vacinado contra figuras messiânicas, em 89 achei que Fernando Collor não se elegeria. Parecia tão mentiroso quanto Jânio, com algumas diferenças: elegante, de banho tomado, o cabelo no lugar, sem caspas. E sem a droga do álcool.
Errei feio. O povão se apaixonou pelo rapaz das Alagoas – como se apaixonara por Getúlio e Jânio – e o pôs lá em cima. De novo a política me espantava.
Felizmente, o rapaz acabou desmascarado. Farsante, ele merece minha condenação perpétua. Como qualquer outro farsante, a serviço de qualquer ideologia.

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PROSEMAS
(Os Prosemas podem até parecer poesia, mas não são.
São apenas exercícios de escrita. Nada mais que exercícios de escrita)


Vinte anos
Corpo corpo corpo.
Completa,
a juventude dispensa
todo eufemismo.
(março/87)

Lembranças
A lembrança que
minha mãe tem
da minha infância
pouco tem a ver
com a lembrança
que eu tenho
da minha infância.
(janeiro/92)

O fim
Acabou, murmurou o
médico ao me comunicar a
morte do pai.

Acabou, berrou o marido
de minha namorada ao
me avisar que ela
não me veria mais.

Com que voz direi Acabou
ao sentir que morri?
(abril/09)

sábado, 13 de agosto de 2011

Pernas de fora

Mexendo numa pilha de papéis velhos, encontro uma entrevista de Braguinha, o João de Barro, em que ele conta que a marchiha “Moreninha da praia”, de 1933, era uma homenagem às meninas que chocaram a cidade ao abolir o uso da meia na Avenida Rio Branco e adjacências. Em 30, a avenida recebera os soldados de Getúlio, eles amarraram os cavalos no obelisco como se estivessem no interior do Rio Grande do Sul, e ninguém achou tão estranho assim. Vencedor é vencedor, estamos conversados. Mas exibir as pernocas nuas no Centro da cidade era revolução demais.
Fosse o Braguinha um desconhecido, um qualquer, e recordasse esse absurdo num papo com gente não nascida na época, corria o risco de passar por mentiroso, no mínimo por exagerado. Se eu porém estivesse entre os ouvintes, o apoiaria com duas pequenas histórias, ocorridas no verão de 1964 ou 65, mais de 30 anos portanto do abaixo as meias na avenida.
A primeira: tarde de sábado, plantão tranquilo na Rádio JB, terceiro andar do antigo prédio do Jornal do Brasil na Rio Branco, entre Ouvidor e Sete de Setembro. De repente, um alarido sobe da calçada, corremos todos para a janela. No outro lado, um punhado de homens perseguia uma mulher alta e loira de camiseta... e short. Estrangeira, estava na cara, ela não sabia que nesta cidade tropical o short caía bem em casa ou nas ruas da Zona Sul, perto do mar, jamais no centro comercial. Apavorada, a gringa conseguiu entrar num táxi e se mandar, sob vaias e aplausos.
A segunda história se deu num dia de meio de semana. Mais ou menos  seis horas da tarde, vinha eu a toda do Ministério da Fazenda, no Castelo, pois ainda tinha de tirar do gravador o trecho da entrevista que iria ao ar às seis e meia. Na altura da Rua da Assembleia, esbarrei num ajuntamento, também de homens.
Apesar do pouco tempo disponível, parei para averiguar o que havia, repórter é repórter. “Nada não”, me respondeu um sujeitinho de pasta James Bond (estava na moda), terno e gravata, “só uma dona que apareceu aí vestindo a tal de minissaia e a gente veio atrás pra conferir. Ela se escondeu nessa loja e o dono baixou a porta. Não faz mal, a gente espera.” Felizmente, a polícia chegou em seguida e dispersou a macharia.
Histórias velhas, mas nem tanto, e que na mão de um artista como Braguinha, poderiam até, livres da carga de violência, ter virado alegres marchas de carnaval. De algum carnaval antigo, bem entendido, pois os carnavais de anteontem é que eram do peru. Ou estarei ficando saudosista?

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Obra-prima
Por falar em Braguinha, ontem ouvi Carinhoso, cuja letra é dele. O casamento da letra com a melodia – esta, do genial Pixinguinha – é de uma perfeição extasiante, duvido que alguém consiga ouvir a música sem se comover. Não é à toa que enquete feita há alguns anos mostrou que todo brasileiro ligado nas coisas sabe cantar pelo menos dois ou três versos de Carinhoso.

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Emoções
As economias americana e europeia na corda bamba (e, pelo jeito, sem rede embaixo), revoltas populares em vários países, da Síria à Inglaterra, o planeta, penso, vive um momento de intensa desarrumação. Por coincidência, leio no jornal, está sendo lançado hoje o livro O mundo em desordem, no qual um sociólogo e uma historiadora paulistas dizem que tanto o comunismo como o capitalismo saíram derrotados na disputa pelo controle do planeta. A sensação é essa mesma e agora cabe a pergunta: o que nos espera? Os próximos capítulos serão emocionantes.    

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Ancião
Pai tardio, gosto quando o Artur (12 anos) e a Antonia (19) me chamam de Ancião. Ancião ativo, graças aos dois voltei a práticas há muito postas de lado, como ir a jogo de futebol, e adotei hábitos estranhos, como comer pipoca em cinema. Só falta mesmo providenciar uma tatuagem. Eles insistem, mas aí já é exagero, vamos com calma.
E, nesta véspera do Dia dos Pais, meu maior desejo é que a Antonia e o Artur se tornem melhores que eu. O que certamente acontecerá.

sábado, 6 de agosto de 2011

E agosto chegou (2)

A primeira aula do segundo semestre com Irmão Telmo, mau sinal. Como desde o início do ano, Patinho, Boca, Caruncho e Rolha sentaram-se lado a lado, na terceira fila de carteiras, e afivelaram a máscara de inocentes. Não convenceram. Fiel à ameaça de pouco antes, no pátio, Irmão Telmo os separou. Fez a chamada, fechou a caneta Parker 61, prendeu-a na manga e sorriu nervoso.
Deu as boas-vindas à turma, recomendou mais concentração e empenho e, em seguida, se desbaratou – enfiou no mesmo saco as artimanhas do demônio, a disputa entre Jânio e Lott, os males do fumo e a cruzada de Plínio Salgado. De matemática, a matéria do horário, nem dois mais dois. Ninguém sabia direito qual tinha sido a cruzada de Plínio Salgado, alguém levantou o dedo, pediu detalhes.
Irmão Telmo soqueou o ar, gritou Grande África, Grande África! E, suando apesar do frio, falou da revolução de 30, do Estado Novo e do movimento integralista.
Numa pausa, Patinho, decidido a atingir Rolha, que se declarava monarquista, perguntou ao Irmão qual o melhor regime, a realeza ou a república. Depende, ele disse, entre um rei mau e um presidente bom, ponto para a república; porém, entre um presidente mau e um rei bom...
Patinho insistiu, e entre um rei bom e um presidente bom, qual o melhor? Irmão Telmo endureceu o olhar e encerrou o papo, a hora avança, vamos à matemática, onde paramos no primeiro semestre?
No intervalo para a segunda aula, de francês, Patinho, Rolha, Caruncho e Boca dividiram um cigarro no corredor dos banheiros. Um deles previu que Irmão Telmo, cada dia mais destrambelhado, terminaram em camisa de força.
- É a falta de mulher – Caruncho diagnosticou. – Esse negócio de voto de castidade não é pra qualquer um.
- Só para os santos – Rolha disse. – Para meia dúzia.
Boca soltou fumaça pelo nariz, aos poucos, como nos filmes americanos.
- Longe de mim a santidade. Ainda mais agora que conheci o Rio de Janeiro e minha prima carioca. A cara da Kim Novak. Se vocês soubessem o que fizemos... E, nas férias de fim de ano, ela vem a Curitiba. Vai ficar lá em casa.
- Bom – Caruncho deu a última tragada -, estamos em agosto, você tem tempo de mandar construir um galinheiro.
A tirada agradou, até Boca riu. Mas logo contra-atacou: - Que inveja! Vocês não passam de uns viergenzinhos frustrados, cheios de espinhas.
Patinho o enfrentou: - Ora, Bocão, você já disse que quer ser poeta porque a verdade está na poesia.
- E daí?
- Daí que você vai ser sincero com a gente: tua prima te desvirginou ou vocês ficaram no bate-bola?
- Vou além – Rolha equilibrou-se na ponta dos pés. – Essa prima existe de verdade ou é uma foto manchada da Kim Novak?
Boca encarou o céu: - Grande Alá, eu, o habitante mais sagaz e sensível desta tua cidade, pergunto: o que diz o Corão sobre os adolescentes? Devem ser tratados como infiéis ou merecem benevolência?
Aplaudido enfim pelos cupinchas, convidou-os a matar as outras aulas do dia. . Proposta aceita por aclamação, os quatro escaparam. Foram beber cuba-livre no bar da esquina.
- Eu brindo – Rolha levantou o copo –à mãe do Boca, que sábado faz 40 anos.
O candidato a poeta não gostou: - Ideia infeliz, brindar à velhice.
- Então nos conte de você e da prima do Rio.
- Pra quê? Vocês não acreditam.
- Conte assim mesmo – Caruncho pediu. – No fim a gente vota, verdade ou mentira?
Com toda calma, Boca tomou um bom gole, olhou em torno. Senhor do momento. No limite do suspense, desenhou um par de peitos no ar e, lábios de sátiro, começou a deliciar os companheiros.

Acreditar ou não no Boca,  eis a questão
para Rolha, Patinho e Caruncho

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Em compensação
Quem viveu a Guerra Fria – a tensão permanente entre Estados Unidos e União Soviética, as duas potências armadas de bombas atômicas até os dentes -, que perdurou do fim da Segunda Guerra Mundial, em abril de 1945, até a queda do Muro do Berlim, em novembro de 1989, certamente perdeu a conta do número de situações em que o fim da civilização ocidental pareceu iminente. Mas, como sempre acontece, o medo não impedia a bolação de piadas. Como a que se segue e que, a meu ver, não perdeu a graça – a graça inteligente:
Deu-se que John, jovem americano simpatizante da URSS, foi passear em Moscou. Ivan, o cicerone, desdobrou-se para mostrar-lhe o melhor da capital. Depois de um dia de muitas caminhadas, levou-o à estação central do metrô, um dos orgulhos do regime comunista.
- Camarada John – Ivan disse – aqui, a cada três minutos, três minutos exatos, passa um trem do sul para o norte, outro do norte para o sul, um do leste para o oeste e outro do oeste para o leste.
- Mas camarada Ivan – John retrucou -, estamos aqui há cinco minutos e não passou nem um trem.
Ivan, na bucha:
- Em compensação, vocês perseguem os negros.