sábado, 27 de agosto de 2011

Comeu?

Cabelos úmidos, pele cheirosa
Com menos de um ano de jornalismo - um foca, na gíria da profissão - ele tremeu ao saber que iria entrevistar Fulaninha Silva, cantora de nome nacional e que, havia seis semanas, tinha sua moderna interpretação de um clássico de Noel Rosa no topo da parada de sucessos. O G. caiu doente, o chefe informou, e nós precisamos dessa entrevista pra amanhã, sinto muito, você foi o escolhido, é a sua chance de mostrar a que veio. Disse que o foca iria sozinho, sem fotógrafo, Fulaninha fora fotografada na noite anterior, fez ligeiras recomendações e soltou uma risada satânica.
Ao chegar à casa de Fulaninha, o escolhido ainda ouvia a risada do chefe. Passou por um segurança, entrou na sala conduzido por uma empregada de uniforme, sentou-se no sofá indicado. A cantora apareceu logo, os cabelos úmidos, a pele cheirosa. Sussurrou oi, você é tão jovenzinho, sentou-se à esquerda do repórter e, ligado o gravador, começou a falar de si - a vocação, a carreira, o sucesso, os fãs, as viagens.
A pele cheirosa, os cabelos úmidos, a voz rouca. De repente fez uma pausa, saltou até a vitrola (era no tempo das vitrolas), pôs no volume certo a canção que todo o país cantava e voltou deslizante para o sofá. Mas não se sentou. Ficou de pé em frente ao nosso herói, os quadris na altura dos olhos dele, a ondular o corpo bem devagar, enquanto acompanhava baixinho o que o disco – ela – cantava.
E agora, pensou o jovenzinho, o que faço? Avanço ou me seguro, me seguro ou avanço?  O medo de estar fantasiando a situação, de agarrar a dona e ser rechaçado, que é isso, garoto, enlouqueceu?, de ser denunciado por ela e perder o emprego conseguido a duras penas, segurou-se. Fingiu a mais extrema naturalidade, encerrou a entrevista com ar de santo.
Chegou ao jornal taquicárdico e, antes de se pôr a trabalhar, tentou contar ao chefe o que vivera. O cara o interrompeu:
- Comeu?
- Nã..., eu...
Levou um tabefe nas costas:
- Ora, meu querido, que bobeada, todo mundo come.
Ouviu a risada satânica, odiou-se. Sentiu-se o último dos focas.


O general e a alemãzinha
Enfim o assessor apareceu na sala de espera e alegrou os seis repórteres que estavam ali desde cedo: o general ia, sim, falar à imprensa, mas, por favor, tivessem um pouco mais de paciência, questão de dez-quinze minutos no máximo, só o tempo pro general despachar uns papeis importantes.
Quinze minutos a mais, não fazia diferença, na troça os repórteres ensaiaram aplausos. O assessor se retirou, apareceu o moço do cafezinho. Os da imprensa se serviram e, aliviados, mudaram de papo, os problemas do governo, em pauta enquanto esperavam o assessor, deram lugar a futebol, cinema e, adivinhem, mulher. Registre-se o fato raríssimo: eram seis rapazes, nenhuma menina para inibi-los.
E no capítulo mulher, o relato mais animado coube a um  repórter de São Paulo, dois dias antes ele percorrera um bom pedaço da Transamazônica, obra monumental do regime militar, ele e outros jornalistas convidados, entre os quais uma catarinense radicada no Rio, meus amigos, que fêmea, alemãzinha, vocês não fazem ideia, um banquete, e não é que a gracinha colou em mim, eu, o feioso do grupo, e ela colou em mim, e eu nela, claro, nos tornamos inseparáveis, pra inveja dos outros machos, quando chegou a noite nós dois...
Aí o ouvinte mais atento ao relato, repórter de um jornal carioca, cortou o colega paulista:
- Comeu?
- Não, mano, não comi, sabe que ela...
- Puxa, cara, que susto, ela é minha mulher.
- Voc..., eu...
O general entrou na sala, a paz brilhou no céu da pátria.

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No avião
É de manhã e de repente você, que há anos não adoece, percebe que algo não vai bem. Como, com o correr do dia, os sinais de desequilíbrio orgânico se intensificam, você entra em contato com o médico e marca consulta ainda para aquela tarde. Preocupado, chega ao consultório antes da hora combinada. O médico o atende com algum atraso e, após minucioso exame, informa, o quadro não é tão grave, mas foi ótimo você ter me procurado logo, se tivesse deixado para depois, as coisas poderiam complicar.
Sob controle, você volta para casa e, obediente ao médico, inicia um período de repouso. E assim, na chatice do nada fazer, embora já sinta alguma melhora, você não deixa de pensar na fragilidade humana, na precariedade da vida. Pensamento idêntico ao que ocorre a todos que estão a bordo de um avião, mesmo aos que se gabam de não ter medo de voar: tudo ótimo, mas nada impede que daqui a dois segundos a gente se espatife lá embaixo.

sábado, 20 de agosto de 2011

Getúlio, Jânio etc

Com o pai e a mãe, eu estava em Campo Grande, principal cidade de Mato Grosso, bem mais movimentada que a capital, Cuiabá (como vocês veem, antes, bem antes, da criação de Mato Grosso do Sul). Certa noite fomos ao cinema, não para assistir a algum filme, mas para ouvir um deputado carioca que vinha percorrendo o Brasil em campanha contra a corrupção do governo federal.
Apresentado à platéia, o deputado levantou-se  e, as lentes grossas refletindo a luz da sala, soltou a voz grave: “Vou lhes falar de um personagem que tem crista de galo, rabo de galo, porte de galo, canta de galo, porém não é galo.” Daí em diante, arrasou. Nome do deputado: Carlos Lacerda. Nome do falso galo: Getúlio Vargas, presidente da República.
De volta a Curitiba, onde morávamos, todas as noites o pai ligava o rádio. Da Rádio Globo, Lacerda disparava sua metralhadora de mil e uma balas e eu, na leveza dos meus 10 anos, começava a perceber que tinha nascido num país difícil. A situação piorou quando Lacerda e o major da Aeronáutica Rubens Vaz foram atacados a tiros, o atentado da Rua Toneleros.
Vaz morreu, Lacerda, ferido no pé, redobrou os ataques. Os adultos em meu redor só falavam  em mar de lama, Gregório Fortunato, República do Galeão. Até que no dia 24 de agosto – 57 anos atrás – calaram-se atônitos. O presidente Getúlio Vargas se matou com um tiro no coração, anunciava o noticiário em edição extraordinária. O pai, militar antigetulista, não segurou o choro. Suas lágrimas marcaram meu primeiro espanto político.

Quase 10 anos mais tarde, em abril de 64, dias após os militares mergulharem o país nas trevas, eu e alguns colegas da Faculdade Nacional de Filosofia paramos diante do busto de Getúlio na Cinelândia e, sem pressa, lemos a carta-testamento. Desafio ingênuo de jovens quase imberbes. E, mesmo agindo de coração, eu já desconfiava que, por ter sido ditador, o presidente suicida não merecia minha admiração. Como não merece qualquer outro ditador, de qualquer ideologia.

***

Em 1961, sete anos e um dia depois do suicídio de Getúlio Vargas, estava eu na cadeira do barbeiro aparando minha (acreditem) vasta cabeleira e ouvindo no rádio o Rancho das Flores (Jesus, alegria dos homens, de Bach, com letra de Vinícius de Moraes – e agora aqui temos o bom crisantemo, seu nome cantemos...), de repente a música é interrompida e o locutor anuncia a renúncia do presidente Jânio Quadros.
Janista doente, embora, menor de idade, ainda não votasse, me recusei a aceitar o que ouvira. Impossível, mentira, conspiração. Saí do barbeiro enlouquecido, claro que o governo desmentiria em seguida a terrível notícia, coisa de jornalista safado, vendido.
O desmentido não veio. Jânio embarcou para Londres, e eu fiquei a remoer meu segundo espanto político. Logo entendi que tinha acreditado num irresponsável, um irresponsável que sonhara em ser ditador. E que, por isso, não merecia meu respeito. Como não o merece qualquer outro candidato a ditador, de qualquer ideologia.

***

Já maduro, vacinado contra figuras messiânicas, em 89 achei que Fernando Collor não se elegeria. Parecia tão mentiroso quanto Jânio, com algumas diferenças: elegante, de banho tomado, o cabelo no lugar, sem caspas. E sem a droga do álcool.
Errei feio. O povão se apaixonou pelo rapaz das Alagoas – como se apaixonara por Getúlio e Jânio – e o pôs lá em cima. De novo a política me espantava.
Felizmente, o rapaz acabou desmascarado. Farsante, ele merece minha condenação perpétua. Como qualquer outro farsante, a serviço de qualquer ideologia.

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PROSEMAS
(Os Prosemas podem até parecer poesia, mas não são.
São apenas exercícios de escrita. Nada mais que exercícios de escrita)


Vinte anos
Corpo corpo corpo.
Completa,
a juventude dispensa
todo eufemismo.
(março/87)

Lembranças
A lembrança que
minha mãe tem
da minha infância
pouco tem a ver
com a lembrança
que eu tenho
da minha infância.
(janeiro/92)

O fim
Acabou, murmurou o
médico ao me comunicar a
morte do pai.

Acabou, berrou o marido
de minha namorada ao
me avisar que ela
não me veria mais.

Com que voz direi Acabou
ao sentir que morri?
(abril/09)

sábado, 13 de agosto de 2011

Pernas de fora

Mexendo numa pilha de papéis velhos, encontro uma entrevista de Braguinha, o João de Barro, em que ele conta que a marchiha “Moreninha da praia”, de 1933, era uma homenagem às meninas que chocaram a cidade ao abolir o uso da meia na Avenida Rio Branco e adjacências. Em 30, a avenida recebera os soldados de Getúlio, eles amarraram os cavalos no obelisco como se estivessem no interior do Rio Grande do Sul, e ninguém achou tão estranho assim. Vencedor é vencedor, estamos conversados. Mas exibir as pernocas nuas no Centro da cidade era revolução demais.
Fosse o Braguinha um desconhecido, um qualquer, e recordasse esse absurdo num papo com gente não nascida na época, corria o risco de passar por mentiroso, no mínimo por exagerado. Se eu porém estivesse entre os ouvintes, o apoiaria com duas pequenas histórias, ocorridas no verão de 1964 ou 65, mais de 30 anos portanto do abaixo as meias na avenida.
A primeira: tarde de sábado, plantão tranquilo na Rádio JB, terceiro andar do antigo prédio do Jornal do Brasil na Rio Branco, entre Ouvidor e Sete de Setembro. De repente, um alarido sobe da calçada, corremos todos para a janela. No outro lado, um punhado de homens perseguia uma mulher alta e loira de camiseta... e short. Estrangeira, estava na cara, ela não sabia que nesta cidade tropical o short caía bem em casa ou nas ruas da Zona Sul, perto do mar, jamais no centro comercial. Apavorada, a gringa conseguiu entrar num táxi e se mandar, sob vaias e aplausos.
A segunda história se deu num dia de meio de semana. Mais ou menos  seis horas da tarde, vinha eu a toda do Ministério da Fazenda, no Castelo, pois ainda tinha de tirar do gravador o trecho da entrevista que iria ao ar às seis e meia. Na altura da Rua da Assembleia, esbarrei num ajuntamento, também de homens.
Apesar do pouco tempo disponível, parei para averiguar o que havia, repórter é repórter. “Nada não”, me respondeu um sujeitinho de pasta James Bond (estava na moda), terno e gravata, “só uma dona que apareceu aí vestindo a tal de minissaia e a gente veio atrás pra conferir. Ela se escondeu nessa loja e o dono baixou a porta. Não faz mal, a gente espera.” Felizmente, a polícia chegou em seguida e dispersou a macharia.
Histórias velhas, mas nem tanto, e que na mão de um artista como Braguinha, poderiam até, livres da carga de violência, ter virado alegres marchas de carnaval. De algum carnaval antigo, bem entendido, pois os carnavais de anteontem é que eram do peru. Ou estarei ficando saudosista?

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Obra-prima
Por falar em Braguinha, ontem ouvi Carinhoso, cuja letra é dele. O casamento da letra com a melodia – esta, do genial Pixinguinha – é de uma perfeição extasiante, duvido que alguém consiga ouvir a música sem se comover. Não é à toa que enquete feita há alguns anos mostrou que todo brasileiro ligado nas coisas sabe cantar pelo menos dois ou três versos de Carinhoso.

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Emoções
As economias americana e europeia na corda bamba (e, pelo jeito, sem rede embaixo), revoltas populares em vários países, da Síria à Inglaterra, o planeta, penso, vive um momento de intensa desarrumação. Por coincidência, leio no jornal, está sendo lançado hoje o livro O mundo em desordem, no qual um sociólogo e uma historiadora paulistas dizem que tanto o comunismo como o capitalismo saíram derrotados na disputa pelo controle do planeta. A sensação é essa mesma e agora cabe a pergunta: o que nos espera? Os próximos capítulos serão emocionantes.    

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Ancião
Pai tardio, gosto quando o Artur (12 anos) e a Antonia (19) me chamam de Ancião. Ancião ativo, graças aos dois voltei a práticas há muito postas de lado, como ir a jogo de futebol, e adotei hábitos estranhos, como comer pipoca em cinema. Só falta mesmo providenciar uma tatuagem. Eles insistem, mas aí já é exagero, vamos com calma.
E, nesta véspera do Dia dos Pais, meu maior desejo é que a Antonia e o Artur se tornem melhores que eu. O que certamente acontecerá.

sábado, 6 de agosto de 2011

E agosto chegou (2)

A primeira aula do segundo semestre com Irmão Telmo, mau sinal. Como desde o início do ano, Patinho, Boca, Caruncho e Rolha sentaram-se lado a lado, na terceira fila de carteiras, e afivelaram a máscara de inocentes. Não convenceram. Fiel à ameaça de pouco antes, no pátio, Irmão Telmo os separou. Fez a chamada, fechou a caneta Parker 61, prendeu-a na manga e sorriu nervoso.
Deu as boas-vindas à turma, recomendou mais concentração e empenho e, em seguida, se desbaratou – enfiou no mesmo saco as artimanhas do demônio, a disputa entre Jânio e Lott, os males do fumo e a cruzada de Plínio Salgado. De matemática, a matéria do horário, nem dois mais dois. Ninguém sabia direito qual tinha sido a cruzada de Plínio Salgado, alguém levantou o dedo, pediu detalhes.
Irmão Telmo soqueou o ar, gritou Grande África, Grande África! E, suando apesar do frio, falou da revolução de 30, do Estado Novo e do movimento integralista.
Numa pausa, Patinho, decidido a atingir Rolha, que se declarava monarquista, perguntou ao Irmão qual o melhor regime, a realeza ou a república. Depende, ele disse, entre um rei mau e um presidente bom, ponto para a república; porém, entre um presidente mau e um rei bom...
Patinho insistiu, e entre um rei bom e um presidente bom, qual o melhor? Irmão Telmo endureceu o olhar e encerrou o papo, a hora avança, vamos à matemática, onde paramos no primeiro semestre?
No intervalo para a segunda aula, de francês, Patinho, Rolha, Caruncho e Boca dividiram um cigarro no corredor dos banheiros. Um deles previu que Irmão Telmo, cada dia mais destrambelhado, terminaram em camisa de força.
- É a falta de mulher – Caruncho diagnosticou. – Esse negócio de voto de castidade não é pra qualquer um.
- Só para os santos – Rolha disse. – Para meia dúzia.
Boca soltou fumaça pelo nariz, aos poucos, como nos filmes americanos.
- Longe de mim a santidade. Ainda mais agora que conheci o Rio de Janeiro e minha prima carioca. A cara da Kim Novak. Se vocês soubessem o que fizemos... E, nas férias de fim de ano, ela vem a Curitiba. Vai ficar lá em casa.
- Bom – Caruncho deu a última tragada -, estamos em agosto, você tem tempo de mandar construir um galinheiro.
A tirada agradou, até Boca riu. Mas logo contra-atacou: - Que inveja! Vocês não passam de uns viergenzinhos frustrados, cheios de espinhas.
Patinho o enfrentou: - Ora, Bocão, você já disse que quer ser poeta porque a verdade está na poesia.
- E daí?
- Daí que você vai ser sincero com a gente: tua prima te desvirginou ou vocês ficaram no bate-bola?
- Vou além – Rolha equilibrou-se na ponta dos pés. – Essa prima existe de verdade ou é uma foto manchada da Kim Novak?
Boca encarou o céu: - Grande Alá, eu, o habitante mais sagaz e sensível desta tua cidade, pergunto: o que diz o Corão sobre os adolescentes? Devem ser tratados como infiéis ou merecem benevolência?
Aplaudido enfim pelos cupinchas, convidou-os a matar as outras aulas do dia. . Proposta aceita por aclamação, os quatro escaparam. Foram beber cuba-livre no bar da esquina.
- Eu brindo – Rolha levantou o copo –à mãe do Boca, que sábado faz 40 anos.
O candidato a poeta não gostou: - Ideia infeliz, brindar à velhice.
- Então nos conte de você e da prima do Rio.
- Pra quê? Vocês não acreditam.
- Conte assim mesmo – Caruncho pediu. – No fim a gente vota, verdade ou mentira?
Com toda calma, Boca tomou um bom gole, olhou em torno. Senhor do momento. No limite do suspense, desenhou um par de peitos no ar e, lábios de sátiro, começou a deliciar os companheiros.

Acreditar ou não no Boca,  eis a questão
para Rolha, Patinho e Caruncho

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Em compensação
Quem viveu a Guerra Fria – a tensão permanente entre Estados Unidos e União Soviética, as duas potências armadas de bombas atômicas até os dentes -, que perdurou do fim da Segunda Guerra Mundial, em abril de 1945, até a queda do Muro do Berlim, em novembro de 1989, certamente perdeu a conta do número de situações em que o fim da civilização ocidental pareceu iminente. Mas, como sempre acontece, o medo não impedia a bolação de piadas. Como a que se segue e que, a meu ver, não perdeu a graça – a graça inteligente:
Deu-se que John, jovem americano simpatizante da URSS, foi passear em Moscou. Ivan, o cicerone, desdobrou-se para mostrar-lhe o melhor da capital. Depois de um dia de muitas caminhadas, levou-o à estação central do metrô, um dos orgulhos do regime comunista.
- Camarada John – Ivan disse – aqui, a cada três minutos, três minutos exatos, passa um trem do sul para o norte, outro do norte para o sul, um do leste para o oeste e outro do oeste para o leste.
- Mas camarada Ivan – John retrucou -, estamos aqui há cinco minutos e não passou nem um trem.
Ivan, na bucha:
- Em compensação, vocês perseguem os negros.

sábado, 30 de julho de 2011

E agosto chegou

Patinho, Rolha e Caruncho chegaram quase juntos ao colégio. Cumprimentaram-se ruidosamente e, como a maioria dos colegas, espremeram-se contra o paredão batido pelo sol fraco da manhã.
- Não aguento mais essa friagem – Caruncho meteu as luvas -, parece a Sibéria.
- Que férias – Patinho reclamou -, passei a maior parte do tempo embaixo do cobertor. Me esquentando e lendo, vocês já leram Jorge Amado?
- Prefiro Érico Veríssimo – Rolha, xenófobo. – Não gosto do Nordeste.
- Pior pra você. O Jorge tem cada cena! De derreter.
- E o Nordeste – Caruncho, viajado -, cada praia! Areia fininha e muita mulher. Todas moreninhas, nada a ver com essas branquelas daqui.
- Veja quem fala.
- Polaco desbotado. Parece albino.
- Por isso mesmo. Quando casar, vou pôr uma cor nas crianças.
- Já escolheu o marido?
Rolha e Patinho riram e se coçaram. Caruncho fez sinal de pego vocês na curva. Para espantar o frio, saltitaram e trocaram socos. De repente, sincronizados, como o Trio Irakitan, perguntaram cadê o Boca?
Caruncho: - Ele vai faltar já no primeiro dia de aula?
Patinho: - Assim, repete o ano.
Rolha: - Vai ser bem-feito.
Nem acabaram de falar, no alto da escadaria Boca, teatral, abriu os braços: - E agosto chegou/cuidem-se, mamíferos preguiçosos/a vida os matará.
Os três amigos o vaiaram.
- Fresco.
- Normalista.
- Mocinha.
Boca desceu os degraus aos pulos, atirou-se no meio dos cúmplices.
- Insensíveis, idiotas.
Nesse exato momento, Irmão Telmo passou por eles. Arreganhou seu riso de ameaça, vocês não se largam, pois na minha aula vão sentar separados. O Quarteto fez uma reverência, o senhor, Boca disse, é nosso mestre, nosso guia.
O Irmão, já lá adiante, os rapazes se abraçaram.
Kim Novak. Monumento de sensualidade,
inspirava a juventude dos anos 50-60 na
prática da "justiça com as próprias mãos"
- E aí, Bocão, as férias?
- Sensacionais, estive no Rio de Janeiro.
- Carradas de mulheres?
- Milhões. E conheci uma prima, a cara da Kim Novak, vocês não têm ideia do que fizemos.
- Lá vem ele.
- O faroleiro.
- Tire a mão do bolso, deixe eu ver.
- Estão com inveja, não conto. Mudemos de assunto. Quem vence a eleição, Lott ou Jânio?
- Se eu tivesse idade de votar – Patinho, de família udenista – votaria no Jânio. Mas, mesmo sem meu voto, ele vai se eleger. É o próximo presidente da República.
- Que nada – Caruncho, pessedista de berço – o Lott ganhou uma espada de ouro.
Rolha, convicto: - Qualquer que seja o resultado, é tempo perdido. O Brasil só toma jeito no dia em que restaurarem a monarquia.
Boca, superior:- Pra mim, política é mistério. Entendo de poesia e de mulher.
Patinho esfregou as mãos: - Por falar em mulher, vamos ao sábado-dançante do Curitibano? Caminhões de brotos.
Boca não podia. Sábado, sua mãe fazia 40 anos e o dia seria de festa na família.
- Quarenta anos? – Patinho arregalou os olhos. – E ela vai comemorar?
- Velho – Caruncho balançou a cabeça – tem cada uma!  
Os quatro afundaram sob arrobas de silêncio. O sino chamando para a primeira aula do segundo semestre os deprimiu mais ainda.
(Continua)

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Beleza, beleza – Fã do futebol de qualidade, muito mais do que torcedor do Botafogo, continuo – como milhões de brasileiros - boquiaberto com o jogo de quarta-feira entre Flamengo e Santos. Habituado a me deitar por volta das 11 horas, há tempos vejo apenas o primeiro tempo das partidas noturnas que, por acerto da TV Globo com a CBF, começam pouco antes das 10. Pois no dia 27 abri uma exceção. Os 45 minutos iniciais, fechados em 3 a 3, tinham sido tão bons que adiei a ida para a cama. E valeu a pena. A vitória do Fla (5 a 4) foi o de menos, o Santos poderia ter vencido. O de mais foi o espetáculo e, em particular, a exibição de Neymar, autor de um gol celestial. Não resta qualquer dúvida, esse garoto é da família de Pelé, quase tão gênio quanto o divino Crioulo (atenção, eu disse quase).          

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Delícia - Pesquisa do Ibope mostra que 76% dos moradores do Rio se orgulham da cidade. Não gosto dessa história de orgulho, de modo geral acho bobagem, mas a verdade é que o Rio, com todos os seus problemas, é uma delícia.  O prazer de morar aqui às vezes alcança intensidade sexual. Exagero? Sei lá, se for, salve o exagero.  

sábado, 23 de julho de 2011

Teatro dos cínicos

Dias atrás, a leitura de um artigo sobre o cinismo de alguns políticos me trouxe à memória dois figuraços, hoje esqueceidos: Moisés Lupion e Ademar de Barros.
Lupion foi o primeiro grande vivaldino que conheci. Duas vezes governador do Paraná, era apontado como um dos maiores larápios públicos do seu tempo. Entre muitas outras histórias, havia a da venda de uma praça no interior do estado e a de ter embolsado bom dinheiro com uma compra gigante de papel higiênico. Negócio sujo mesmo.
Pois na inauguração do Colégio Militar de Curitiba, no fim dos anos 50, Lupion fez belíssimo discurso sobre o valor da educação. “A educação”, disse, os olhos em fogo, os punhos cerrados, “é a riqueza que o tempo não corroi, que o ladrão não rouba...”
Até o arcebispo de Curitiba, dom Manoel da Silveira Delboux, teve de disfarçar o riso. Impávio, senhor ator, Lupion prosseguiu na exaltação do saber e da honestidade. Terminou ovacionado.
O paulista Ademar de Barros, contemporâneo de Lupion, era outro grande cínico. Prefeito, governador, eterno candidato a presidente da República, inspirou o bordão “rouba mas faz”. Dizendo-se devoto de Nossa Senhora, creio que de Nossa Senhora Aparecida, andava com um terço no bolso e o mostrava sempre que sua honestidade era posta em dúvida. Convencer não convencia, mas ninguém lhe negava o talento de ótimo comediante.
Logo depois do golpe de 64, Ademar falou no Rio para as senhoras da Camde (uma associação de católicas reacionárias, defensoras histéricas da ditadura) sobre “os perigos do comunismo internacional e ateu, felizmente afastado para sempre do nosso querido Brasil”. Empunhou o terço, riu e chorou, só faltou cantar e sapatear. Aplaudiram-no de pé.
Ademar e Lupion acabaram cassados. Os generais, aliás, se gabavam de não dar asa aos desonestos. Mentira. Os manjadíssimos (e nem todos) foram sim jogados ao mar, em compensação desabrocharam inúmeras vocações. Em grande parte, graças à censursa, protetora dos opressores.
A propósito, os aproveitadores públicos não se cansam de bendizer a censura. Preferem o inferno à liberdade de expressão. Fácil de entender.
Claro que, não havendo outro jeito, defendem a democracia com garbo. Afinal, artista de verdade é aquele que nenhum papel assusta. Foi assim que em 89 Collor, o galã das Alagoas, engambelou a maioria do povo e ganhou o Planalto. Desempenho idêntico ao de outro mistificador consumado, Jânio Quadros, que no começo dos anos 60 arrebatou o país e, depois de apenas sete meses na presidência da República, renunciou.
Ainda hoje a cara de pau de Collor me espanta. Enquanto cuspia o discurso mais moralista do mundo, prevaricava. E só se saiu mal porque, provinciano, temperava esperteza com gulodice exagerada e truculência. Saiu-se mal, mas deixou filhotes. E que filhotes!

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Simples - Quando menos se espera, a gente ouve cada uma! Eu estava numa festinha, em apartamento privilegiado do Flamengo, e a conversa, depois de passar por política e economia, o inverno e a crise da meia idade, desaguou nos excessos da polícia.
Aí o doutor Fulano, médico dos mais requisitados da praça, até aquele momento calado, pigarreou e soltou sua opinião: “Não, torturar, de modo nenhum, mesmo porque é burrice. Pra que torturar se basta um teco? Um simples teco. O policial leva o bandido prum canto e teco. Pronto, está resolvida a fatura.”

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PROSEMAS
(Os Prosemas podem até parecer poesia, mas não são.
São apenas exercícios de escrita. Nada mais que exercícios de escrita)


Urbanédia
No centro da cidade está a loucura da cidade
A loucura da cidade está no centro da loucura
No centro da loucura está a cidade da loucura
A cidade da loucura está no centro da cidade.

Loucura deixar a cidade
Fora da cidade a loucura
A loucura da centralidade.

Urbanédia 2
Toda a loucura da cidade
está no centro da cidade
toda manhã toda tarde
a loucura fica no centro da cidade.

Mas no fim de semana a loucura
                                fica em casa
esvazia o centro da cidade
de toda bondade toda maldade.

sábado, 16 de julho de 2011

Duas Mulheres/Uma mulher/Todas as mulheres

Depois do hino
(Sala confortável de apartamento classe média na Zona Sul do Rio de Janeiro. Em cena Mãe, quase centenária, e Filha, 70 anos).

Filha (terminando de acomodar a mãe na poltrona quase cama, cheia de travesseiros, em frente à televisão desligada) – E agora, está bom?
Mãe – Ótimo. Obrigada.
F (senta-se numa poltrona menos confortável que a da mãe e começa a folhear uma revista) – Quer mudar a fralda?
M – Não precisa, está sequinha.
F - Ligo a TV?
M – Não, cansei.
F – Então descanse.
M – Que horas os convidados chegam?
F – Na hora do almoço, ali por uma, uma e meia.
M – Você convidou quem?
F – Ora, mãe, a velharada toda. A casa vai ficar cheia.
M – Vai ser uma farra. E a comida?
F- Estrogonofe. E torta de maracujá, de sobremesa. Tudo que você gosta.
M – Estrogonofe da Heleninha?
F - Da Heleninha, claro. Daqui a pouco ela aparece.
M – Santa Heleninha. Quantos anos ela está conosco?
F – 43.
M – Já é de casa (mexe-se na poltrona, suspira). E eu, quantos?
F – 98, mãe. Você está fazendo 98 anos.
M – 98 ou 99?
F – 98. Você cismou com 99. 98, combinado?
M – Então faltam dois?
F – Isso, dois.
M – Passa rápido. Daqui a dois anos eu danço a valsa com o Luís Felipe. Dançamos a valsa e depois cantamos o hino... Ouviram do Ipiranga as margens (tosse).
F -   Quer cuspir?
M – Já engoli. Diga pro Luís Felipe que eu quero ele de farda engomada, impecável. Aliás, nem precisa dizer, teu pai anda sempre impecável, a farda engomada.
F – Andava, mãe, andava.
M -  Ah, não seja má.
F – Desculpe.
M – Dois anos? Passa rápido. Só existe uma possibilidade de eu não chegar aos cem,
F – Lá vem besteira.
M – é morrer antes.
F – Olha a besteira.
M – Mas (ergue e sacode os braços com força) não morro, morrer não está nos meus planos.
F – Assim que se fala, parabéns.
M – Estrogonofe da Heleninha? Delícia.
(O interfone toca, a Filha se levanta para atender).
M (sentando-se direito na poltrona) – Espere aí, espere aí...
F – O que houve?
M – Será que é o Luís Felipe. Se for ele,
F – Não é ele, mãe, ele... (fala rapidamente ao interfone, volta a sentar-se).
M – Quem era?
F – O porteiro se enganou, ia ligar pro 502, ligou pra cá.
M – Que susto, meu Deus, pensei que fosse o...
F – Pensou errado, eu já te disse, o papai...
M – Olha, se o Luís Felipe aparecer antes dos meus cem anos, diz pra ele que eu não quero antecipar nada, eu faço questão de...
F – Já sei, já sei, fique tranqüila.
M – Daqui a dois anos sim. Mas ele tem de vir todo engomado, a farda impecável,
F – Eu digo pra ele, não se aflija.
M – que é pra dançarmos com todo o brilho.
F – Seria lindo.
M  (sublinhando o verbo) – Será lindo. E, terminada a dança, cantamos o hino.
F – Ouviram do...
M – ... Ipiranga as margens plácidas...
F -  E depois do hino, você vai estar cansada, eu levo você pra dormir, combinado?
M (pulando, ficando de cócoras na poltrona, com o vigor de uma adolescente) – Não senhora, nada disso. Depois do hino eu e o Luís Felipe vamos pro quarto...
F – Mãe, o papai...
M – Não me interrompa.
F - ... ele já...
M – Não me interrompa e, quando estivermos no quarto, não nos espione, não fique no corredor com a orelha grudada na porta.
F – Sim, eu não...
M – Seja uma menina obediente, sou eu que engomo a farda do teu pai, eu que... cadê a Heleninha?,  esse estrogonofe sai ou não sai?    


  Até o fim
De repente a vontade mansa de transar com o cunhado explodiu. Certa de que o desejo era recíproco – ele a olhava com gula – abriu o jogo: que tal passarmos uma tarde em teu apartamento, lá tem cama? Marcaram para o dia seguinte, ele podia faltar ao trabalho, a esperaria.
Foi ótimo, ah, como a vida é boa. Ainda estavam se vestindo, o cunhado soltou a ameaça: já imaginou a confusão se eu conto pro meu irmãozinho querido? Ela gelou, bem que o marido não se cansava de pichar o irmão, é um crápula, você não faz idéia do que já sofri na mão dele.
Passou o resto do dia com medo, de noite decidiu agir. Alisou a cabeleira do marido enquanto viam televisão, quero te contar uma canalhice do Arnoldo, mas só se você prometer que se segura, que não vai tirar satisfações, promete? Arnaldo se impacientou, conta, o que o filho da puta, com o perdão da mamãe, aprontou? Ela fingiu vacilar, mordiscou a orelha do marido, o carinho preferido dele, e soltou a bomba: o teu irmão me cantou, me chamou pra gente trepar, assim com todas as letras.
Arnaldo esmurrou o sofá, mau caráter, inconveniente, parece personagem do Nelson Rodrigues, você precisa ler o Nelson pra entender o que eu digo. Arnaldo bufando, ela ficou em dúvida se fizera o melhor. Agira por instinto, e se desse errado? Mordiscou, alisou, fez voz de criança, você prometeu não tirar satisfações, lembre-se de tua mãe, a coitada pode ter um enfarte.
Palavra dada, Arnaldo renovou a promessa, ficaria quieto. Mas cuspiu mais veneno contra Arnoldo: não se surpreenda se o pulha espalhar que você é que deu em cima dele, ele é capaz de tudo. Ela gemeu, pois é, sei lá, bem, mas você está prevenido.
Antes de dormirem, se amaram. Arnaldo, tão carinhoso, tão camarada, ela sentiu que jamais o deixaria. Viveria quantas aventuras pudesse viver, mas permaneceria com o marido até o fim, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, como jurara. E, pela primeira vez, quis ter um filho.


Eu
Eu sou todas as mulheres que tive. Da que me pariu à que me pediu que a sodomizasse. Da que se deu inteira à que me negou o prazer mais ínfimo. Da que me sustentou à que me traiu. Eu sou todas elas.
E sou também as que não tive. Todas, todas, todas.