sábado, 30 de julho de 2011

E agosto chegou

Patinho, Rolha e Caruncho chegaram quase juntos ao colégio. Cumprimentaram-se ruidosamente e, como a maioria dos colegas, espremeram-se contra o paredão batido pelo sol fraco da manhã.
- Não aguento mais essa friagem – Caruncho meteu as luvas -, parece a Sibéria.
- Que férias – Patinho reclamou -, passei a maior parte do tempo embaixo do cobertor. Me esquentando e lendo, vocês já leram Jorge Amado?
- Prefiro Érico Veríssimo – Rolha, xenófobo. – Não gosto do Nordeste.
- Pior pra você. O Jorge tem cada cena! De derreter.
- E o Nordeste – Caruncho, viajado -, cada praia! Areia fininha e muita mulher. Todas moreninhas, nada a ver com essas branquelas daqui.
- Veja quem fala.
- Polaco desbotado. Parece albino.
- Por isso mesmo. Quando casar, vou pôr uma cor nas crianças.
- Já escolheu o marido?
Rolha e Patinho riram e se coçaram. Caruncho fez sinal de pego vocês na curva. Para espantar o frio, saltitaram e trocaram socos. De repente, sincronizados, como o Trio Irakitan, perguntaram cadê o Boca?
Caruncho: - Ele vai faltar já no primeiro dia de aula?
Patinho: - Assim, repete o ano.
Rolha: - Vai ser bem-feito.
Nem acabaram de falar, no alto da escadaria Boca, teatral, abriu os braços: - E agosto chegou/cuidem-se, mamíferos preguiçosos/a vida os matará.
Os três amigos o vaiaram.
- Fresco.
- Normalista.
- Mocinha.
Boca desceu os degraus aos pulos, atirou-se no meio dos cúmplices.
- Insensíveis, idiotas.
Nesse exato momento, Irmão Telmo passou por eles. Arreganhou seu riso de ameaça, vocês não se largam, pois na minha aula vão sentar separados. O Quarteto fez uma reverência, o senhor, Boca disse, é nosso mestre, nosso guia.
O Irmão, já lá adiante, os rapazes se abraçaram.
Kim Novak. Monumento de sensualidade,
inspirava a juventude dos anos 50-60 na
prática da "justiça com as próprias mãos"
- E aí, Bocão, as férias?
- Sensacionais, estive no Rio de Janeiro.
- Carradas de mulheres?
- Milhões. E conheci uma prima, a cara da Kim Novak, vocês não têm ideia do que fizemos.
- Lá vem ele.
- O faroleiro.
- Tire a mão do bolso, deixe eu ver.
- Estão com inveja, não conto. Mudemos de assunto. Quem vence a eleição, Lott ou Jânio?
- Se eu tivesse idade de votar – Patinho, de família udenista – votaria no Jânio. Mas, mesmo sem meu voto, ele vai se eleger. É o próximo presidente da República.
- Que nada – Caruncho, pessedista de berço – o Lott ganhou uma espada de ouro.
Rolha, convicto: - Qualquer que seja o resultado, é tempo perdido. O Brasil só toma jeito no dia em que restaurarem a monarquia.
Boca, superior:- Pra mim, política é mistério. Entendo de poesia e de mulher.
Patinho esfregou as mãos: - Por falar em mulher, vamos ao sábado-dançante do Curitibano? Caminhões de brotos.
Boca não podia. Sábado, sua mãe fazia 40 anos e o dia seria de festa na família.
- Quarenta anos? – Patinho arregalou os olhos. – E ela vai comemorar?
- Velho – Caruncho balançou a cabeça – tem cada uma!  
Os quatro afundaram sob arrobas de silêncio. O sino chamando para a primeira aula do segundo semestre os deprimiu mais ainda.
(Continua)

@@@@@

Beleza, beleza – Fã do futebol de qualidade, muito mais do que torcedor do Botafogo, continuo – como milhões de brasileiros - boquiaberto com o jogo de quarta-feira entre Flamengo e Santos. Habituado a me deitar por volta das 11 horas, há tempos vejo apenas o primeiro tempo das partidas noturnas que, por acerto da TV Globo com a CBF, começam pouco antes das 10. Pois no dia 27 abri uma exceção. Os 45 minutos iniciais, fechados em 3 a 3, tinham sido tão bons que adiei a ida para a cama. E valeu a pena. A vitória do Fla (5 a 4) foi o de menos, o Santos poderia ter vencido. O de mais foi o espetáculo e, em particular, a exibição de Neymar, autor de um gol celestial. Não resta qualquer dúvida, esse garoto é da família de Pelé, quase tão gênio quanto o divino Crioulo (atenção, eu disse quase).          

@@@@@

Delícia - Pesquisa do Ibope mostra que 76% dos moradores do Rio se orgulham da cidade. Não gosto dessa história de orgulho, de modo geral acho bobagem, mas a verdade é que o Rio, com todos os seus problemas, é uma delícia.  O prazer de morar aqui às vezes alcança intensidade sexual. Exagero? Sei lá, se for, salve o exagero.  

sábado, 23 de julho de 2011

Teatro dos cínicos

Dias atrás, a leitura de um artigo sobre o cinismo de alguns políticos me trouxe à memória dois figuraços, hoje esqueceidos: Moisés Lupion e Ademar de Barros.
Lupion foi o primeiro grande vivaldino que conheci. Duas vezes governador do Paraná, era apontado como um dos maiores larápios públicos do seu tempo. Entre muitas outras histórias, havia a da venda de uma praça no interior do estado e a de ter embolsado bom dinheiro com uma compra gigante de papel higiênico. Negócio sujo mesmo.
Pois na inauguração do Colégio Militar de Curitiba, no fim dos anos 50, Lupion fez belíssimo discurso sobre o valor da educação. “A educação”, disse, os olhos em fogo, os punhos cerrados, “é a riqueza que o tempo não corroi, que o ladrão não rouba...”
Até o arcebispo de Curitiba, dom Manoel da Silveira Delboux, teve de disfarçar o riso. Impávio, senhor ator, Lupion prosseguiu na exaltação do saber e da honestidade. Terminou ovacionado.
O paulista Ademar de Barros, contemporâneo de Lupion, era outro grande cínico. Prefeito, governador, eterno candidato a presidente da República, inspirou o bordão “rouba mas faz”. Dizendo-se devoto de Nossa Senhora, creio que de Nossa Senhora Aparecida, andava com um terço no bolso e o mostrava sempre que sua honestidade era posta em dúvida. Convencer não convencia, mas ninguém lhe negava o talento de ótimo comediante.
Logo depois do golpe de 64, Ademar falou no Rio para as senhoras da Camde (uma associação de católicas reacionárias, defensoras histéricas da ditadura) sobre “os perigos do comunismo internacional e ateu, felizmente afastado para sempre do nosso querido Brasil”. Empunhou o terço, riu e chorou, só faltou cantar e sapatear. Aplaudiram-no de pé.
Ademar e Lupion acabaram cassados. Os generais, aliás, se gabavam de não dar asa aos desonestos. Mentira. Os manjadíssimos (e nem todos) foram sim jogados ao mar, em compensação desabrocharam inúmeras vocações. Em grande parte, graças à censursa, protetora dos opressores.
A propósito, os aproveitadores públicos não se cansam de bendizer a censura. Preferem o inferno à liberdade de expressão. Fácil de entender.
Claro que, não havendo outro jeito, defendem a democracia com garbo. Afinal, artista de verdade é aquele que nenhum papel assusta. Foi assim que em 89 Collor, o galã das Alagoas, engambelou a maioria do povo e ganhou o Planalto. Desempenho idêntico ao de outro mistificador consumado, Jânio Quadros, que no começo dos anos 60 arrebatou o país e, depois de apenas sete meses na presidência da República, renunciou.
Ainda hoje a cara de pau de Collor me espanta. Enquanto cuspia o discurso mais moralista do mundo, prevaricava. E só se saiu mal porque, provinciano, temperava esperteza com gulodice exagerada e truculência. Saiu-se mal, mas deixou filhotes. E que filhotes!

@@@@@
  
Simples - Quando menos se espera, a gente ouve cada uma! Eu estava numa festinha, em apartamento privilegiado do Flamengo, e a conversa, depois de passar por política e economia, o inverno e a crise da meia idade, desaguou nos excessos da polícia.
Aí o doutor Fulano, médico dos mais requisitados da praça, até aquele momento calado, pigarreou e soltou sua opinião: “Não, torturar, de modo nenhum, mesmo porque é burrice. Pra que torturar se basta um teco? Um simples teco. O policial leva o bandido prum canto e teco. Pronto, está resolvida a fatura.”

@@@@@

PROSEMAS
(Os Prosemas podem até parecer poesia, mas não são.
São apenas exercícios de escrita. Nada mais que exercícios de escrita)


Urbanédia
No centro da cidade está a loucura da cidade
A loucura da cidade está no centro da loucura
No centro da loucura está a cidade da loucura
A cidade da loucura está no centro da cidade.

Loucura deixar a cidade
Fora da cidade a loucura
A loucura da centralidade.

Urbanédia 2
Toda a loucura da cidade
está no centro da cidade
toda manhã toda tarde
a loucura fica no centro da cidade.

Mas no fim de semana a loucura
                                fica em casa
esvazia o centro da cidade
de toda bondade toda maldade.

sábado, 16 de julho de 2011

Duas Mulheres/Uma mulher/Todas as mulheres

Depois do hino
(Sala confortável de apartamento classe média na Zona Sul do Rio de Janeiro. Em cena Mãe, quase centenária, e Filha, 70 anos).

Filha (terminando de acomodar a mãe na poltrona quase cama, cheia de travesseiros, em frente à televisão desligada) – E agora, está bom?
Mãe – Ótimo. Obrigada.
F (senta-se numa poltrona menos confortável que a da mãe e começa a folhear uma revista) – Quer mudar a fralda?
M – Não precisa, está sequinha.
F - Ligo a TV?
M – Não, cansei.
F – Então descanse.
M – Que horas os convidados chegam?
F – Na hora do almoço, ali por uma, uma e meia.
M – Você convidou quem?
F – Ora, mãe, a velharada toda. A casa vai ficar cheia.
M – Vai ser uma farra. E a comida?
F- Estrogonofe. E torta de maracujá, de sobremesa. Tudo que você gosta.
M – Estrogonofe da Heleninha?
F - Da Heleninha, claro. Daqui a pouco ela aparece.
M – Santa Heleninha. Quantos anos ela está conosco?
F – 43.
M – Já é de casa (mexe-se na poltrona, suspira). E eu, quantos?
F – 98, mãe. Você está fazendo 98 anos.
M – 98 ou 99?
F – 98. Você cismou com 99. 98, combinado?
M – Então faltam dois?
F – Isso, dois.
M – Passa rápido. Daqui a dois anos eu danço a valsa com o Luís Felipe. Dançamos a valsa e depois cantamos o hino... Ouviram do Ipiranga as margens (tosse).
F -   Quer cuspir?
M – Já engoli. Diga pro Luís Felipe que eu quero ele de farda engomada, impecável. Aliás, nem precisa dizer, teu pai anda sempre impecável, a farda engomada.
F – Andava, mãe, andava.
M -  Ah, não seja má.
F – Desculpe.
M – Dois anos? Passa rápido. Só existe uma possibilidade de eu não chegar aos cem,
F – Lá vem besteira.
M – é morrer antes.
F – Olha a besteira.
M – Mas (ergue e sacode os braços com força) não morro, morrer não está nos meus planos.
F – Assim que se fala, parabéns.
M – Estrogonofe da Heleninha? Delícia.
(O interfone toca, a Filha se levanta para atender).
M (sentando-se direito na poltrona) – Espere aí, espere aí...
F – O que houve?
M – Será que é o Luís Felipe. Se for ele,
F – Não é ele, mãe, ele... (fala rapidamente ao interfone, volta a sentar-se).
M – Quem era?
F – O porteiro se enganou, ia ligar pro 502, ligou pra cá.
M – Que susto, meu Deus, pensei que fosse o...
F – Pensou errado, eu já te disse, o papai...
M – Olha, se o Luís Felipe aparecer antes dos meus cem anos, diz pra ele que eu não quero antecipar nada, eu faço questão de...
F – Já sei, já sei, fique tranqüila.
M – Daqui a dois anos sim. Mas ele tem de vir todo engomado, a farda impecável,
F – Eu digo pra ele, não se aflija.
M – que é pra dançarmos com todo o brilho.
F – Seria lindo.
M  (sublinhando o verbo) – Será lindo. E, terminada a dança, cantamos o hino.
F – Ouviram do...
M – ... Ipiranga as margens plácidas...
F -  E depois do hino, você vai estar cansada, eu levo você pra dormir, combinado?
M (pulando, ficando de cócoras na poltrona, com o vigor de uma adolescente) – Não senhora, nada disso. Depois do hino eu e o Luís Felipe vamos pro quarto...
F – Mãe, o papai...
M – Não me interrompa.
F - ... ele já...
M – Não me interrompa e, quando estivermos no quarto, não nos espione, não fique no corredor com a orelha grudada na porta.
F – Sim, eu não...
M – Seja uma menina obediente, sou eu que engomo a farda do teu pai, eu que... cadê a Heleninha?,  esse estrogonofe sai ou não sai?    


  Até o fim
De repente a vontade mansa de transar com o cunhado explodiu. Certa de que o desejo era recíproco – ele a olhava com gula – abriu o jogo: que tal passarmos uma tarde em teu apartamento, lá tem cama? Marcaram para o dia seguinte, ele podia faltar ao trabalho, a esperaria.
Foi ótimo, ah, como a vida é boa. Ainda estavam se vestindo, o cunhado soltou a ameaça: já imaginou a confusão se eu conto pro meu irmãozinho querido? Ela gelou, bem que o marido não se cansava de pichar o irmão, é um crápula, você não faz idéia do que já sofri na mão dele.
Passou o resto do dia com medo, de noite decidiu agir. Alisou a cabeleira do marido enquanto viam televisão, quero te contar uma canalhice do Arnoldo, mas só se você prometer que se segura, que não vai tirar satisfações, promete? Arnaldo se impacientou, conta, o que o filho da puta, com o perdão da mamãe, aprontou? Ela fingiu vacilar, mordiscou a orelha do marido, o carinho preferido dele, e soltou a bomba: o teu irmão me cantou, me chamou pra gente trepar, assim com todas as letras.
Arnaldo esmurrou o sofá, mau caráter, inconveniente, parece personagem do Nelson Rodrigues, você precisa ler o Nelson pra entender o que eu digo. Arnaldo bufando, ela ficou em dúvida se fizera o melhor. Agira por instinto, e se desse errado? Mordiscou, alisou, fez voz de criança, você prometeu não tirar satisfações, lembre-se de tua mãe, a coitada pode ter um enfarte.
Palavra dada, Arnaldo renovou a promessa, ficaria quieto. Mas cuspiu mais veneno contra Arnoldo: não se surpreenda se o pulha espalhar que você é que deu em cima dele, ele é capaz de tudo. Ela gemeu, pois é, sei lá, bem, mas você está prevenido.
Antes de dormirem, se amaram. Arnaldo, tão carinhoso, tão camarada, ela sentiu que jamais o deixaria. Viveria quantas aventuras pudesse viver, mas permaneceria com o marido até o fim, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, como jurara. E, pela primeira vez, quis ter um filho.


Eu
Eu sou todas as mulheres que tive. Da que me pariu à que me pediu que a sodomizasse. Da que se deu inteira à que me negou o prazer mais ínfimo. Da que me sustentou à que me traiu. Eu sou todas elas.
E sou também as que não tive. Todas, todas, todas. 

sábado, 9 de julho de 2011

Tempo

       Tarde de sábado. Fechado no quarto, o Poeta sofre a falta de inspiração. Na garrafa meio palmo a menos de uísque, no papel palavras soltas, prosaicas, sem qualquer parentesco com poesia.
 Feito o apostador supersticioso que tenta superar a má sorte com atitudes desvinculadas do jogo, como rodar a cadeira, fumar o cigarro do adversário ou vestir a camisa pelo avesso, o Poeta anda de braços abertos e joelhos dobrados, liga e desliga a televisão, muda a posição do telefone.
O telefone, o caderno de telefones. Abre-o ao acaso, talvez algum nome o inspire. P Paulo Antunes: mentiroso compulsivo, me deve dinheiro. Paula Vinagre: autora de belos poemas eróticos, um gelo na cama. Pedro Aquino: levou minha biografia de Carlos Zéfiro, não devolveu. Patrício: ninguém mais culto e modesto que ele. DDora: me esnobou, preferiu um caipira endinheirado e Bauru: Duília: estúpida, ignorante, fascista, lindérrima. Décio: foi para Manaus, ouvi dizer que morreu. Débora:  aos 30 e tantos, cultiva as roupas e os trejeitos dos 18. Dila: discute os problemas do mundo, depois reclama do egoísmo dos homens e chora. NNara: me transmite enorme ternura, apesar de falarem horrores dela.
Nenhuma luz, o Poeta fecha o caderno de telefones e abre a porta do quarto. Na sala, a faxineira trabalha. Ao vê-lo, ela o enfrenta:
- Será que o senhor me adiantava o dinheiro de dois meses? Extraí os dentes de cima, tenho de encomendar dentadura.
O Poeta pechincha:
- O dinheiro de dois meses? Não é muito? Dentadura custa tanto.
- Por favor – a faxineira insiste -, o senhor é intelecto, entende meu problema, preciso ter uma apresentação. Sem dentes, me engolem.
- Vou fazer as contas, te respondo na semana que vem.
Sai, lê os títulos dos jornais expostos na banca ao lado do edifício. Alguém lhe cutuca o ombro, vira-se, esbarra numa mulher alta e magra.
- Quem sou eu?
- Ora, Beatriz. Beatriz Maria de Morais Alighieri, a divina.
Ruidosa, Beatriz aperta o Poeta.
- O que você conta de interessante?
- Nada, absolutamente nada. Não me acontece nada de extraordinário.
- Pois comigo aconteceu de tudo... mas onde você se esconde?
- Aqui, nesse prédio marrom.
- E eu no amarelo em frente. Vizinhos e nunca nos vimos. Copacabana é terrível.
O Poeta não gosta do jeito da mulher, há quantos anos se perderam? Ensaia se despedir, bem, vou indo, qualquer hora a gente se encontra. Ela reage, puxa-o para o prédio amarelo. Moro no térreo, diz, escancara a porta do apartamento, estende o braço em direção a um menino de 9-10 anos, diante da televisão. Filho, este é um amigo da mamãe, diga boa tarde.
O menino olha o visitante de relance e se reintegra à imagem colorida. O Poeta, diz, oi, tudo bem? O que perguntar mais?, qual o teu nome, quantos anos você tem? Há muito não fala com criança, falta-lhe traquejo.
Beatriz o espreme na ponta do sofá, me conta tudo, quer beber alguma coisa? Ela o deprime, como ser solidário? Um-dois-três, já! Num salto, ele abre a porta, dispara até a calçada, atravessa a rua, entra na loja de sucos, pede um de abacaxi. O português da caixa tagarela: - Vacilou, Bebê Terremoto agarra. Se proteja, que aquela é perigosa.
Beatriz Alighieri. Ontem a divina, hoje Bebê Terremoto. O tempo, a crueldade do tempo. O Poeta toma o suco, volta para casa. A faxineira acabou o trabalho, se mandou. Vai financiar, resolveu, a dentadura da coitada.
Senta-se de novo à mesa, olha o papel rabiscado. Poesia nenhuma. Levanta-se, aproxima-se da estante, puxa um livro. Abre-o ao acaso, como abrira o caderno de telefones, e em voz alta lê os versos que justificarão esta tarde de sábado.

@@@@@

Inveja – Sonia Braga conta em entrevista que já viveu uma noite romântica com outra mulher. Quantos homens não gostariam de ter sido essa felizarda.

@@@@@

Indigente - Getúlio, Tancredo, Senna, Kennedy, Mao, Diana e tantos outros. Grandes funerais.
Na vala comum acabou Mozart, cuja música me emociona neste momento, 220 anos depois de sua morte.

sábado, 2 de julho de 2011

Curita/Floripa

    Se eu não tivesse saído daqui, como teria sido minha vida? – a pergunta pipocou de repente e me perseguiu durante o feriadão de Corpus Christi, passado em Curitiba (Curita, na intimidade), onde vivi a maior parte da infância e a adolescência. No penúltimo dia do passeio, atingido por uma gripe com ares de pneumonia, que ainda não me deixou de todo, fiz humor: se eu tivesse permanecido aqui, teria vivido uma vida encatarrada, de muita tosse e pesados agasalhos.
Mas, agora falando sério, a perguntinha impertinente e a gripe não diminuíram o prazer da visita. Rever Curitiba – avenidas e bairros arejados, edifícios e casas de boa arquitetura, bosques e parques charmosos – sempre me toca. Um sobrinho listou as mazelas da cidade, e ele deve ter razão, no entanto o que marca o visitante é o clima de fartura. Uma fartura não simplesmente material, uma fartura difusa, que não consigo definir.
De qualquer modo, Curitiba - epicentro do mundo mórbido de Dalton Trevisan – é na certa o que nós, brasileiros, temos de mais civilizado. Para o bem ou para o mal.  

***

Em algum momento de minha estada em Curitiba, alguém falou em Florianópolis (na intimidade, Floripa), e eu senti saudades. Morei lá dos dois aos cinco anos e são da Ilha de Santa Catarina  as minhas primeiras imagens e lembranças de mim e do mundo.
O mar no fundo do quintal, em Coqueiros (bairro do continente); Osni, o menino gago, e suas irmãs Iolanda e Irene, vizinhos e companheiros de fuzarca; o mercado municipal e o Morro da Cruz, de onde se avista boa parte da cidade; a Lagoa da Conceição e as praias; a Ponte Hercílio Luz e o folhado em forma de sola de sapato que eu adorava, encontrado em confeitarias do Centro. E, com frequência,  o Vento Sul de assobio assustador. Quando ventava, eu não podia brincar no quintal, tinha de ficar dentro de casa, portas e janelas trancadas.
Anos atrás, numas férias, peguei o carro e desci rumo ao sul. Em Florianópolis, fiquei três dias para conferir as lembranças. A casa e o quintal da infância remota haviam desaparecido sob um viaduto; no outrora bucólico Morro da Cruz, plantaram-se as antenas das emissoras de televisão; a charmosa Hercílio Luz  fora aposentada; e, imperdoável, não existia mais (procurei em várias confeitarias) o folhado dos sonhos.
Mas, apesar de tudo isso, Floripa continuava encantadora, as praias e a lagoa ainda a salvo dos predadores. Na tarde em que deixei a ilha, começava a ventar. Abri bem os vidros do carro e prometi voltar com mais calma, a cidade merecia visita de pelo menos uma semana. Promessa até hoje não cumprida, e que renovo agora.

@@@@@

Ciência - O cidadão chegou do trabalho, encontrou a casa saqueada. Ainda confuso, foi à delegacia dar queixa. No momento em que ia dizer ao policial que desconfiava de uma antiga faxineira, da sala ao lado vieram berros, estalar de tapas, gemidos e choro. O policial sorriu. “Não se assuste, nada demais, é apenas um colega aplicando o método científico. A propósito, se encontrarmos quem assaltou sua casa, o senhor permite que se use o método científico?” O cidadão respondeu que não, era contra, radicalmente contra, o policial balançou a cabeça, “o senhor é um ingênuo”.  

@@@@@

Reviravolta - Segundo a Promotoria de Nova Iorque, a camareira que acusou o francês Dominique Strauss-Kahn, então chefão do FMI e candidato favorito à presidência da França, de tê-la estuprado a 14 de maio, mentiu várias vezes em seus depoimentos. Ainda bem que, ao comentar a bomba uma semana depois, no dia 21, eu comecei assim: “A se confirmar a veracidade do noticiário...” Agora esperemos – as investigações continuam - os próximos capítulos da novela.

@@@@@

PROSEMAS
(Os Prosemas podem até parecer poesia, mas não são.
São apenas exercícios de escrita. Nada mais que exercícios de escrita)

Eternamente
A imperfeição do mundo:
O Rio não está em Nova York, Veneza
                                                naufraga.
A velhice anula o saber, o bem e o mal
                                              se opõem.
O homem só conhece o gosto do gozo de homem,
                                             a mulher o da mulher.
Mas há um consolo: depois da morte, a morte.
(março/87)

Sono
Porque dormem pouco,
os velhos têm tempo de sobra.
Ao contrário dos moços
que, por dormirem demais,
estão sempre à beira da morte.
(fevereiro/98)

Protético
Eu esculpo dentes.

Para pessoas sãs e pessoas doentes.
Para artistas e presidentes.
Para velhos e, acredite, jovens e adolescentes.

Só não trabalho para indigentes.
Com eles não há acerto, não há trela.
Com eles é ela-por-ela, é na banguela.
(dezembro/10)

sábado, 25 de junho de 2011

Um domingo em Estocolmo

Quarta-feira que vem, 29, fará 53 anos que, por volta do meio-dia, o país parou em torno dos aparelhos de rádio para ouvir, entre mil interferências (a tecnologia da época, 1958, não garantia transmissões límpidas como as de hoje), Brasil e Suécia, a decisão da sexta Copa do Mundo de futebol, em Estocolmo. Era domingo, um domingo histórico e de muito sufoco. Ainda no início do jogo, os suecos marcaram o primeiro gol e, do Oiapoque ao Chuí (desculpem) correu o medo de sermos mais uma vez vice-campeões – nadar, nadar e...
Naquele momento – como soubemos mais tarde – Didi, o maestro e inventor da folha-seca, terror dos goleiros, pegou a bola no fundo da rede, voltou para o meio do campo com ela debaixo do braço e ordenou aos companheiros: “Agora, vamos encher esses gringos.”
Santas palavras! O primeiro tempo terminou 2 a 1 para nós e a partida acabou em 5 a 2, com a torcida sueca nos aplaudindo de pé. Caramba, éramos campeões do mundo, título que oito anos antes havíamos perdido de forma humilhante para o Uruguai, no Maracanã. Do Chuí ao Oiapoque (melhor assim?), a euforia tomou conta dos brasileiros, como se tivéssemos vencido uma guerra. Carnaval em pleno inverno.
Entre os craques vencedores, os mais reverenciados eram Garrincha, o das pernas tortas e do drible infernal, e Pelé, o menino-gênio que o mundo proclamaria rei – título até hoje não conquistado por outro atleta. De lá para cá, no esporte em geral, aqui e lá fora, surgiram vários príncipes, mas rei só o Sublime Crioulo, como dizia Nelson Rodrigues.
Me lembro que no dia seguinte à vitória, eu e meus colegas de futebol, todos adolescentes de 13/14 anos, disputamos uma de nossas peladas mais alegres. E, terminada a brincadeira, firmamos o pacto de que na Copa do Mundo de 62, no Chile, um de nós repetiria a façanha de Pelé. Pobres sonhadores.

***

Os moços, que não viram o Sublime Crioulo em campo –, e também os que viram e querem relembrar – devem correr atrás do documentário Pelé Eterno. Uma joia, comovente. Existe em DVD.
(Eu tive o privilégio de pegar a carreira de Pelé do começo ao fim. E me arrependo de, por preguiça, não ter ido mais aos estádios para vê-lo).

@@@@@

O dono das chaves - Nos seis anos de colégio marista - da 4ª série do Primário à 1ª do Científico -, não me tornei religioso mas desenvolvi grande simpatia pelo apóstolo Pedro, o santo do próximo dia 29, segundo o calendário católico. Bela figura, esse pescador do Mar da Galiléia, que Jesus convocou para ser pescador de homens e transformou no primeiro chefe de sua igreja (tu és pedra e sobre essa pedra etc etc.).
O que comove em Pedro é a autenticidade. Ele não disfarça o que sente, pelo contrário, se expõe continuamente. Se, ao andar sobre as águas lhe falta a fé e acha que vai afundar, não banca o forte – pede socorro; se se enfurece, ao assistir à prisão do Mestre no Jardim das Oliveiras, não engole a raiva – pega da espada e corta a orelha de um dos soldados; se o medo do castigo, por ser subversivo, o domina, não exibe falso heroísmo – simplesmente nega conhecer Jesus (por três vezes, antes de o galo cantar). Ou seja, não é homem de fingimentos.
E, no fim, dá uma lição de grande humildade: condenado à morte, pede aos carrascos romanos que o preguem na cruz de cabeça para baixo, para não morrer da mesma maneira que seu Senhor.
Não estou mais em idade de pular fogueira, mas se até quarta-feira passar por algum arraial, vou tomar uns goles de quentão em homenagem àquele que tem as chaves do reino dos céus.

@@@@@

- Junho se retirando, sexta-feira que vem já é julho, faço de conta que a mudança de semestre é mudança de ano e tomo uma decisão definitiva: daqui para frente acreditarei em tudo que os políticos andam dizendo na televisão e nos jornais. Como posso ser cético diante de tanta sinceridade?

@@@@@

E se...? - Quatro dias de passeio em Curitiba, cidade em que vivi dos 6 aos 19 anos, e aonde eu não vinha há um bom tempo. O frio, a boa comida, a festa dos parentes, o terreno sem a casa da infância e adolescência. E, de repente, a pergunta a que jamais saberei responder: se eu não tivesse saído daqui, como teria sido minha vida?

sábado, 18 de junho de 2011

Pela cidade


Botafogo, a enseada e o casario, em 1919
 Caminho dois quarteirões e meio na Rua Voluntários da Pátria, à procura de um endereço, me lembro de João do Rio. Em 1922, ele escreveu o seguinte: Tornou-se de nossos dirigentes e magnatas uma vaidade singular: a vaidade de Botafogo e adjacências. O resto do Rio não existe, mas paga imposto. O Rio é Botafogo, o resto é a cidade indígena, a cidade negra.
O que João do Rio escreveria se visse Botafogo cheio de edifícios de mau gosto, escritórios e clínicas, as ruas entulhadas de caminhões, ônibus e carros – estes, em frente aos colégios, em filas duplas e até triplas? Talvez nem conseguisse escrever, bloqueado pelo caos botafoguense se declararia ex-cronista e, quebrando a pena, apelaria para o velho lugar-comum: indescritível, ponto final.
Saio de Botafogo rumo a Laranjeiras, troco João do Rio por Machado de Assis. Numa de suas mais deliciosas crônicas, o Bruxo ecoa a notícia do dia: vão calçar a Rua das Laranjeiras. Alarmado, ele pede o arquivamento do projeto. E explica por quê: fora a vantagem de, em dias de chuva, se poder atravessar a rua sem enlamear os sapatos, a novidade teria consequências funestas, todas sob o disfarce do progresso.
O que Machado escreveria se visse o que restou de sua Laranjeiras, de seu Cosme Velho? Acho que não se daria ao trabalho de compor uma crônica. Cansado, piscaria o olho e resmungaria: eu não disse?
De Laranjeiras, já sem a companhia do Bruxo, que preferiu não atravessar o Rebouças, vou à Tijuca pegar um amigo na Rua dos Araújos. É uma rua pequena, entre a General Roca e a Conde de Bonfim, mas de trânsito difícil. Sem saída, por segundos vivo a alucinação de que me enganei e estou de novo em Botafogo. O amigo ri quando lhe falo dessa sensação e conta que, antigamente, a Rua dos Araújos tinha mão dupla e linha de bonde. Palavra de honra, ele diz ante minha cara de incredulidade.
Da Tijuca descemos para o Centro, aonde há muito eu não ia. Aí, aleluia, encontro boas surpresas. Várias ruas e pontos tradicionais foram remodelados e tornaram-se aconchegantes. O amigo, admirador entusiasmado do Rio de anteontem, informa que há em estudo outras ideias com o objetivo de humanizar a região.
Pois que essas ideias se concretizem. Se isso realmente acontecer, voltarei a dar minhas escapadelas por aqui, a flanar (verbozinho simpático, este!) como na época de faculdade. A FNFi ficava no Castelo, junto à Avenida Beira-Mar. Depois das aulas, eu e dois colegas saíamos a bater perna. Evitávamos a Avenida Rio Branco, insuportável, buscávamos ruelas e travessas, caminhos apaixonantes. Não raro, cruzávamos com Manuel Bandeira, morador do Centro. Um de nós declamava algum verso do velho poeta, ele sorria e seguia quieto.
Outras vezes, cada um com sua namorada – avec, se dizia então – íamos para trás do Museu de Arte Moderna ou do Monumento aos Pracinhas. Sentados à sombra, acompanhando o sol, falávamos sem parar – nós endireitaríamos o mundo; depois, o sol posto, cansados de tanta conversa, namorávamos. A violência e o medo pertenciam ao futuro – o Aterro do Flamengo, ainda com muitas áreas sem o verde de Burle Marx, era lugar seguro; e 64, apenas o ano que se aproximava.
Felizes e inocentes, namorávamos, namorávamos, namorávamos.
Bons tempos, bons tempos, bons tempos.

@@@@@

Bobagens - Jantar de aniversário na família, sento-me entre dois primos que não vejo há anos. Não demoramos a engrenar conversa e logo percebo que eles acham que eu, como jornalista, estou a par de tudo, da intimidade da presidente da República aos planos secretos da Nasa para levar o homem a Marte. Não lhes estimulo a fantasia, ponho-me mais como ouvinte. Então, em menos de dez minutos, ouço duas mentiras e quatro piadas infames. Quanta bobagem vou ouvir até a sobremesa? 

@@@@@


FHC - Independentemente de posição política, deve-se ler a entrevista de Fernando Henrique Cardoso, que está completando 80 anos, ao Globo de hoje. Eu não sou PSDB ou fernandista, mas recomendo com veemência.

@@@@@

Mulher ao volante - Finalmente aconteceu: em mais um capítulo das revoltas nos países árabes, mulheres da Arábia Saudita desobedeceram à proibição de dirigir. Aqui cabe, como dizia Nelson Rodrigues, proclamarmos o óbvio: se elas saíram às ruas dirigindo é porque sabem dirigir, e, se sabem dirigir, é porque aprenderam a dirigir. Ou seja: mesmo na ditadura mais fechada, é impossível sufocar completamente o indivíduo. Viva o desejo de liberdade.