sábado, 6 de agosto de 2011

E agosto chegou (2)

A primeira aula do segundo semestre com Irmão Telmo, mau sinal. Como desde o início do ano, Patinho, Boca, Caruncho e Rolha sentaram-se lado a lado, na terceira fila de carteiras, e afivelaram a máscara de inocentes. Não convenceram. Fiel à ameaça de pouco antes, no pátio, Irmão Telmo os separou. Fez a chamada, fechou a caneta Parker 61, prendeu-a na manga e sorriu nervoso.
Deu as boas-vindas à turma, recomendou mais concentração e empenho e, em seguida, se desbaratou – enfiou no mesmo saco as artimanhas do demônio, a disputa entre Jânio e Lott, os males do fumo e a cruzada de Plínio Salgado. De matemática, a matéria do horário, nem dois mais dois. Ninguém sabia direito qual tinha sido a cruzada de Plínio Salgado, alguém levantou o dedo, pediu detalhes.
Irmão Telmo soqueou o ar, gritou Grande África, Grande África! E, suando apesar do frio, falou da revolução de 30, do Estado Novo e do movimento integralista.
Numa pausa, Patinho, decidido a atingir Rolha, que se declarava monarquista, perguntou ao Irmão qual o melhor regime, a realeza ou a república. Depende, ele disse, entre um rei mau e um presidente bom, ponto para a república; porém, entre um presidente mau e um rei bom...
Patinho insistiu, e entre um rei bom e um presidente bom, qual o melhor? Irmão Telmo endureceu o olhar e encerrou o papo, a hora avança, vamos à matemática, onde paramos no primeiro semestre?
No intervalo para a segunda aula, de francês, Patinho, Rolha, Caruncho e Boca dividiram um cigarro no corredor dos banheiros. Um deles previu que Irmão Telmo, cada dia mais destrambelhado, terminaram em camisa de força.
- É a falta de mulher – Caruncho diagnosticou. – Esse negócio de voto de castidade não é pra qualquer um.
- Só para os santos – Rolha disse. – Para meia dúzia.
Boca soltou fumaça pelo nariz, aos poucos, como nos filmes americanos.
- Longe de mim a santidade. Ainda mais agora que conheci o Rio de Janeiro e minha prima carioca. A cara da Kim Novak. Se vocês soubessem o que fizemos... E, nas férias de fim de ano, ela vem a Curitiba. Vai ficar lá em casa.
- Bom – Caruncho deu a última tragada -, estamos em agosto, você tem tempo de mandar construir um galinheiro.
A tirada agradou, até Boca riu. Mas logo contra-atacou: - Que inveja! Vocês não passam de uns viergenzinhos frustrados, cheios de espinhas.
Patinho o enfrentou: - Ora, Bocão, você já disse que quer ser poeta porque a verdade está na poesia.
- E daí?
- Daí que você vai ser sincero com a gente: tua prima te desvirginou ou vocês ficaram no bate-bola?
- Vou além – Rolha equilibrou-se na ponta dos pés. – Essa prima existe de verdade ou é uma foto manchada da Kim Novak?
Boca encarou o céu: - Grande Alá, eu, o habitante mais sagaz e sensível desta tua cidade, pergunto: o que diz o Corão sobre os adolescentes? Devem ser tratados como infiéis ou merecem benevolência?
Aplaudido enfim pelos cupinchas, convidou-os a matar as outras aulas do dia. . Proposta aceita por aclamação, os quatro escaparam. Foram beber cuba-livre no bar da esquina.
- Eu brindo – Rolha levantou o copo –à mãe do Boca, que sábado faz 40 anos.
O candidato a poeta não gostou: - Ideia infeliz, brindar à velhice.
- Então nos conte de você e da prima do Rio.
- Pra quê? Vocês não acreditam.
- Conte assim mesmo – Caruncho pediu. – No fim a gente vota, verdade ou mentira?
Com toda calma, Boca tomou um bom gole, olhou em torno. Senhor do momento. No limite do suspense, desenhou um par de peitos no ar e, lábios de sátiro, começou a deliciar os companheiros.

Acreditar ou não no Boca,  eis a questão
para Rolha, Patinho e Caruncho

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Em compensação
Quem viveu a Guerra Fria – a tensão permanente entre Estados Unidos e União Soviética, as duas potências armadas de bombas atômicas até os dentes -, que perdurou do fim da Segunda Guerra Mundial, em abril de 1945, até a queda do Muro do Berlim, em novembro de 1989, certamente perdeu a conta do número de situações em que o fim da civilização ocidental pareceu iminente. Mas, como sempre acontece, o medo não impedia a bolação de piadas. Como a que se segue e que, a meu ver, não perdeu a graça – a graça inteligente:
Deu-se que John, jovem americano simpatizante da URSS, foi passear em Moscou. Ivan, o cicerone, desdobrou-se para mostrar-lhe o melhor da capital. Depois de um dia de muitas caminhadas, levou-o à estação central do metrô, um dos orgulhos do regime comunista.
- Camarada John – Ivan disse – aqui, a cada três minutos, três minutos exatos, passa um trem do sul para o norte, outro do norte para o sul, um do leste para o oeste e outro do oeste para o leste.
- Mas camarada Ivan – John retrucou -, estamos aqui há cinco minutos e não passou nem um trem.
Ivan, na bucha:
- Em compensação, vocês perseguem os negros.

31 comentários:

  1. Helen, Tanit e Mariana continuam nas minhas lembranças que vc não me deixa esquecer. Agora vc vem falar da Parker 61 !!! tinha uma que perdi. Bicolor. A tampa dourada e o corpo turqueza. Linda de morrer. Apertava a parte debaixo entre os dedos e a tinta vinha subindo. Preciso procurá-la.

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  2. A gente é negro e a gente adorou a piada da guerra fria. Demos boas risadas.
    Beijo da Carla e do Esdras.

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  3. Magaysíssimo, no meu tempo de colegio também tinha um colega que nem o Bocão, mais esperto que o resto do grupo e contador de lorota. O nome dele era Alvaro, Alvinho. Nós sabíamos que a maior parte das historias do Alvinho eram mentira mas gostávamos de ouvir, ele era ótimo ator. Lendo o teu texto senti saudade daquele tempo e do Alvinho.
    Abraço do Igor Matoni.

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  4. Essa piada do americano em Moscou, no tempo da Guerra Fria, mostra como as ideologias são ridículas. Se fosse só isso, nada demais, o problema é que através dos séculos as ideologias já levaram à morte milhões de pessoas. É um horror.
    Visitante.

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  5. Ivan foi na bucha mesmo. Gosto de piadas assim, inteligentes. Mas, já que vc citou o metrô de Moscou, vou dar um giro de 180 graus nessa história. É preciso vê-los como uma verdadeira galeria de arte. São painéis incríveis com trechos de livros de poetas e escritores russos que mudam toda semana, lustres de cristal, exposições de esculturas, teatro na plataforma. sem falar nos músicos a cada 100 metros. As escolas promovem passeios culturais por suas galerias . Só vendo para acreditar.

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  6. Foi no colégio que eu descobri que gostava de meninos. Tinha um colega que me... ai, não vou contar, fiquei com vergonha.
    Beijo a todos.

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  7. o espaço aqui é democrático, Cosme. Garanto a você que muitos segredos se escondem nele.

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  8. Cosme, tenho uma tia que estudou em colégio de freiras só para meninas e ela conta que o banheiro se chamava Circulação, pra as alunas não demorarem ali. Imagine a razão desse cuidado...
    Ana Gam, antes do meio-dia.

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  9. Magaysíssimo, no comentário de ontem quando falei do Alvinho o mais esperto da turma, esqueci de dizer que estudei em escola pública onde crianças pobres se misturavam com crianças da classe media, o que foi muito bom pra mim, me ajudou a ser mais democrático, eu era classe media. Tenho boas lembranças dessa convivencia, acho que toda escola devia ser assim.
    Abraço do Igor Matoni, abreviação de Igor Avelino Soares Matoni.

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  10. No dia 24 de julho, num comentário ao texto "Teatro dos cínicos", eu disse que é impossível viver sem política, que seria como viver sem ar, e ontem eu disse que as ideologias são, além de ridículas, um horror. Pode parecer um paradoxo, que eu não digo coisa com coisa, mas não é isso. Quando ataco as ideologias, ataco é a obediência cega e burra a elas, o que tem muito pouco ou nada a ver com a alta prática política. Todos nós temos uma base ideológica, seja qual for, mas não podemos ser ortodoxos porque a boa política exige flexibilidade. É ou não é?
    Visitante.

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  11. Concordo em cheio, Visitante. E fico mais curioso quanto à sua identidade. Você escreveu que nos conhecemos e que, nas vezes em que nos encontramos, não nos demos bem, razão pela qual você usa pseudônimo, mas já não seria tempo de você dar seu verdadeiro nome? Pense a respeito.

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  12. Pensado está, editor. Ou você me aceita como venho me apresentando ou caio fora.
    Visitante.

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  13. Magaysíssimo, essa pessoa que se esconde sob o pseudonimo de Visitante é muito insolente, não acha?
    Opinião do Igor Matoni.

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  14. Não seja rigoroso, Igor. Essa pessoa que se esconde sob o pseudônimo de Visitante me parece incisiva, não insolente, por isso dei retorno. Ela tem o direito de se manter no anonimato.

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  15. Acho que esse visitante faz um certo charme desnecessário ...
    "ou vc me aceita ou caio fora ...??????? eu já cortaria direto. Insolente mesmo, Igor !

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  16. Editor, eu gosto de participar do blog.
    Se exagerei no tom, desculpe.
    Visitante.

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  17. Como diz o povo em sua profunda sabedoria, vamos em frente que atrás vem gente.

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  18. Magaysíssimo, o teu fair play é invejavel.
    Igor Matoni dá boa noite.

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  19. Calmíssimo Magay, dei boa noite ontem e vou dar hoje mas antes quero saber da Teresíssima que concordou comigo, ela também acha insolente a pessoa que se identifica como Visitante.
    Teresíssima, estou com saudade, cadê você?
    Igor Matoni dá de novo boa noite.

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  20. Além de insolente, Igor, acho-a prepotente. Morde e sopra. Acho que o MA devia rifá-la de vez.

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  21. Teresoca, agora discordo de você e concordo com o Gay, existe o direito ao anonimato, Visitante (ela ou ele) deve continuar.
    Beijo a todos.

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  22. Independente da minha vontade, Cosme, ele ou ela iriam continuar mesmo. Só que eu acho uma babaquice a pessoa se esconder sem a menor necessidade.
    Você anda sumido, hein ?

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  23. Não propriamente sumido, Teresoca, ando é sem inspiração, o Leandro viajou, teve de ir a Salvador. Mas logo ele volta e tudo se normaliza.
    Beijo a todos.

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  24. Te agradeço o apoio, Cosme.
    Visitante.

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  25. esse é o mal da gente ficar muito ligado ao outro, Cosme. Na falta de um o chão parece que falta, não ? Ja passei por isso mas hoje consigo administrar bem essas ausências.

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  26. Oi Igor, agora que apareci vc sumiu !

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  27. Teresíssima, você anda com mania de sumiço, disse que o Cosme anda sumido e agora eu. Eu não sumo, estou sempre por perto. Você é que levou dois dias pra responder a minha confissão de que estou com saudade. Eu sou assim, abro o coração, tem gente que gosta e tem gente que não gosta. Você eu acho que gosta porque também abre o coração.
    Boa noite do sentimental Igor Matoni.

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  28. acho que é porque quero ter as pessoas por perto, Igor. Não gosto de sentir saudades. Sou franca e meu coração está sempre aberto. Para alguns, é claro. Vc tem um espaço nele.

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  29. Teresíssima, acordei curioso em saber se você tinha me respondido. Vibrei vendo que sim e me dando um espaço em seu coração você me deixa prosa. Ganhei o dia, ganhei o fim de semana.
    Faz sol e Igor Matoni dá bom dia.

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  30. Você é uma figura, Igor !
    Aqui tbém faz sol ! Bom dia pra você !

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