Reis de Roma
Tínhamos nos visto três vezes no boteco da esquina, os dois calados a esvaziar uma garrafa de cerveja, eu numa ponta do balcão, ele na outra. Pálido, magro, de óculos e rabo de cavalo. Na quarta vez, as pontas do balcão ocupadas, nos ajeitamos no meio, lado a lado. E, lá pelas tantas, não me lembro qual o assunto, começamos a conversar. Me lembro é que de repente, e também não sei como, o papo enveredou para os impérios do mundo. O império americano, o inglês, o austro-húngaro – sem nada combinado, deslizamos nessa ordem inversa, de hoje para ontem, de ontem para anteontem.
Mais cerveja nos copos, de anteontem para eras remotíssimas, o cara conhecia História, passamos pelos impérios de Carlos Magno e Alexandre da Macedônia, acho que fizemos ligeiras escalas em potências do velho Oriente, e enfim aportamos em Roma. A Roma Antiga, dos Patrícios e plebeus, do Coliseu e as termas, dos banquetes e os bacanais, a metrópole e as províncias – o Poder Romano, presente em quase todo o mundo então conhecido, nos arrebatava, falávamos pelo cotovelos, vamos tomar mais uma?
Tomamos bem mais que o habitual. Mas tudo acaba (até o Império Romano acabou), chegou a hora de irmos embora. Pagamos a conta e, enquanto, no pilequinho, trocávamos um longo abraço, perguntei ao meu recente amigo como se chamava.
Ele, na inocência: - César. E você?
Eu, distraído: - Marco Antonio.
Levou um tempinho, dois ou três segundos, para engrenarmos espalhafatosa risada.
- Será possível? – falei.
- Caramba – ele atônito, como eu. – É isso, somos os reis de Roma.
- De Roma – emendei – e da Cleópatra, nós dois...
-... comemos ela e, se ela estivesse aqui...,
- ... comíamos de novo.
- Sim, sim, na santa paz.
- Na santa paz, claro.
Rimos outro tanto, bem cafajestes, e cada um tomou seu rumo.
Milagre, milagre
Anoitecia, ele sentiu pontadas no ouvido esquerdo. Com medo de as pontadas virarem dor, e a dor não deixá-lo dormir, foi à emergência do Miguel Couto. A médica que o atendeu diagnosticou otite e receitou um antiinflamatório. Dormiu sem dor mas, na manhã seguinte, acordou surdo.
Passaram-se dois dias, a surdez não regrediu. Ele bateu então no consultório de um otorrino em Copacabana, um bambambã, recomendado por uma amiga médica. Conversa, exame, audiometria, e a má notícia: o ouvido interno (foi essa a expressão usada pelo otorrino, ouvido interno) de repente parara de receber sangue, o que havia causado um enfarte, uma isquemia, e, com a isquemia, a surdez. O doutor fez uma careta e desferiu o segundo golpe: a chance de recuperação é de 50 por cento e não adianta você se angustiar, se houver recuperação será demorada. Marcou nova consulta para dali a 15 dias, quando repetiria a audiometria, e esticou a mão.
Não adiantava se angustiar, no entanto ele se angustiou. E três dias depois a angústia cresceu, a surdez alcançara também o ouvido direito. Com súbito medo do otorrino que o atendera, resolveu procurar outro. Foi a uma policlínica em Botafogo, acabou nas mãos de um médico quase adolescente, que poderia ser filho do mestre de Copacabana. Suspirou derrotado, estou frito, pensou, esse fedelho... Nem falou dos antecedentes, a pane no ouvido esquerdo, deixou-se examinar feito um boneco.
Meu amigo, o fedelho foi rápido, não é nada grave, apenas secreção, assim que a secreção se escoar, pode levar dias, sua audição se normalizará. Achou o diagnóstico paupérrimo, de charlatão. Tentou sorrir, não conseguiu, a vontade era esmurrar o medicozinho. Saiu sem se despedir.
Irritação e desespero, voltava ou não ao bambambã? Sim, voltaria, fazer o quê?, não, não voltaria, por que ele?, no Rio havia carradas de otorrinos. Sim-não, não-sim, indeciso, cultivou a ideia de se acostumar à surdez, afinal, tem tanta gente que não ouve e vive bem.
E, no tranco, a vida continuou. Surda. Até que uma madrugada ele acordou com os gemidos do casal vizinho, milagre, milagre, estou ouvindo. Aos gemidos juntou-se a voz do fedelho, assim que a secreção se escoar...
Pulou da cama, o casal vizinho entrava no paraíso, enveredou para o banheiro, há quanto tempo não se masturbava de madrugada?, mas, no meio do corredor, levado por estranha força, desviou para a sala. Ligou o rádio, caiu extasiado na poltrona: no ar, Variações sobre um tema de Haydn. Esqueceu o ateísmo de décadas, rezou pela alma de Johannes Brahms.
