sábado, 18 de junho de 2011

Pela cidade


Botafogo, a enseada e o casario, em 1919
 Caminho dois quarteirões e meio na Rua Voluntários da Pátria, à procura de um endereço, me lembro de João do Rio. Em 1922, ele escreveu o seguinte: Tornou-se de nossos dirigentes e magnatas uma vaidade singular: a vaidade de Botafogo e adjacências. O resto do Rio não existe, mas paga imposto. O Rio é Botafogo, o resto é a cidade indígena, a cidade negra.
O que João do Rio escreveria se visse Botafogo cheio de edifícios de mau gosto, escritórios e clínicas, as ruas entulhadas de caminhões, ônibus e carros – estes, em frente aos colégios, em filas duplas e até triplas? Talvez nem conseguisse escrever, bloqueado pelo caos botafoguense se declararia ex-cronista e, quebrando a pena, apelaria para o velho lugar-comum: indescritível, ponto final.
Saio de Botafogo rumo a Laranjeiras, troco João do Rio por Machado de Assis. Numa de suas mais deliciosas crônicas, o Bruxo ecoa a notícia do dia: vão calçar a Rua das Laranjeiras. Alarmado, ele pede o arquivamento do projeto. E explica por quê: fora a vantagem de, em dias de chuva, se poder atravessar a rua sem enlamear os sapatos, a novidade teria consequências funestas, todas sob o disfarce do progresso.
O que Machado escreveria se visse o que restou de sua Laranjeiras, de seu Cosme Velho? Acho que não se daria ao trabalho de compor uma crônica. Cansado, piscaria o olho e resmungaria: eu não disse?
De Laranjeiras, já sem a companhia do Bruxo, que preferiu não atravessar o Rebouças, vou à Tijuca pegar um amigo na Rua dos Araújos. É uma rua pequena, entre a General Roca e a Conde de Bonfim, mas de trânsito difícil. Sem saída, por segundos vivo a alucinação de que me enganei e estou de novo em Botafogo. O amigo ri quando lhe falo dessa sensação e conta que, antigamente, a Rua dos Araújos tinha mão dupla e linha de bonde. Palavra de honra, ele diz ante minha cara de incredulidade.
Da Tijuca descemos para o Centro, aonde há muito eu não ia. Aí, aleluia, encontro boas surpresas. Várias ruas e pontos tradicionais foram remodelados e tornaram-se aconchegantes. O amigo, admirador entusiasmado do Rio de anteontem, informa que há em estudo outras ideias com o objetivo de humanizar a região.
Pois que essas ideias se concretizem. Se isso realmente acontecer, voltarei a dar minhas escapadelas por aqui, a flanar (verbozinho simpático, este!) como na época de faculdade. A FNFi ficava no Castelo, junto à Avenida Beira-Mar. Depois das aulas, eu e dois colegas saíamos a bater perna. Evitávamos a Avenida Rio Branco, insuportável, buscávamos ruelas e travessas, caminhos apaixonantes. Não raro, cruzávamos com Manuel Bandeira, morador do Centro. Um de nós declamava algum verso do velho poeta, ele sorria e seguia quieto.
Outras vezes, cada um com sua namorada – avec, se dizia então – íamos para trás do Museu de Arte Moderna ou do Monumento aos Pracinhas. Sentados à sombra, acompanhando o sol, falávamos sem parar – nós endireitaríamos o mundo; depois, o sol posto, cansados de tanta conversa, namorávamos. A violência e o medo pertenciam ao futuro – o Aterro do Flamengo, ainda com muitas áreas sem o verde de Burle Marx, era lugar seguro; e 64, apenas o ano que se aproximava.
Felizes e inocentes, namorávamos, namorávamos, namorávamos.
Bons tempos, bons tempos, bons tempos.

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Bobagens - Jantar de aniversário na família, sento-me entre dois primos que não vejo há anos. Não demoramos a engrenar conversa e logo percebo que eles acham que eu, como jornalista, estou a par de tudo, da intimidade da presidente da República aos planos secretos da Nasa para levar o homem a Marte. Não lhes estimulo a fantasia, ponho-me mais como ouvinte. Então, em menos de dez minutos, ouço duas mentiras e quatro piadas infames. Quanta bobagem vou ouvir até a sobremesa? 

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FHC - Independentemente de posição política, deve-se ler a entrevista de Fernando Henrique Cardoso, que está completando 80 anos, ao Globo de hoje. Eu não sou PSDB ou fernandista, mas recomendo com veemência.

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Mulher ao volante - Finalmente aconteceu: em mais um capítulo das revoltas nos países árabes, mulheres da Arábia Saudita desobedeceram à proibição de dirigir. Aqui cabe, como dizia Nelson Rodrigues, proclamarmos o óbvio: se elas saíram às ruas dirigindo é porque sabem dirigir, e, se sabem dirigir, é porque aprenderam a dirigir. Ou seja: mesmo na ditadura mais fechada, é impossível sufocar completamente o indivíduo. Viva o desejo de liberdade.

sábado, 11 de junho de 2011

Dois homens/Um homem/Todos os homens

A inveja do poeta
A notícia correu a faculdade: o crítico Alceu de Amoroso Lima, professor do curso de Letras, ia se aposentar e, como despedida, daria uma aula aberta sobre a literatura brasileira do começo do século 20 à atualidade – estávamos na primeira metade dos anos 60.
No dia marcado, eu e outros matriculados no curso de Jornalismo – que não éramos alunos de Alceu – ocupamos uma fila de carteiras. Aula aberta e de gala, com microfone, mesa de toalha branca, vaso de flores e, nos melhores lugares, um bom número de colegas do mestre na Academia Brasileira de Letras. Me lembro de Afrânio Coutinho e Manuel Bandeira.
E Alceu caprichou: com a energia que lhe era própria, discorreu sobre os nossos melhores escritores do século, fechando a seleção com o fenômeno Guimarães Rosa. E, para terminar, fez graça: mesmo aposentado, no ano 2 mil virei aqui para falar dos nomes importantes de nossa literatura no restante dos 1900.
Risos e aplausos. Em seguida formou-se uma fila para os cumprimentos. Aconteceu de eu ficar atrás de Manuel Bandeira e, por isso, fui o único a ouvir o papo do poeta com o velho professor, em meio a um abraço emocionado:
- Eu te invejo – Bandeira sussurrou.
- Por quê? – Alceu rindo. – Só porque estarei vivo no ano 2 mil?


Elemento perigoso
Cedo, o síndico encontrou o homem em frente ao prédio, sentado sobre uma dessas malas baratas, de papelão pintado. Não deu maior importância, saiu para resolver problemas na cidade.
Voltou no meio da tarde, o homem continuava lá. Comia um pedaço de pão, provavelmente retirado da mala, aberta ao seu lado. Subiu, a mulher lhe disse que o sujeito quase não se mexera. “Talvez a gente possa ajudar ele”, sugeriu.
O síndico desceu à rua e puxou conversa com o estranho. Ele nem o olhou. Parecia longe, muito longe. A essa altura, os vizinhos formavam um grupo na entrada da garagem. O síndico juntou-se a eles.
- O que vocês acham?
O capitão reformado do apartamento 608 não refrescou:
- Ele tem todas as características de elemento perigoso, quiçá subversivo. Assim como tirou da mala aquele pedaço de pão, daqui a pouco pode tirar uma bomba e nos mandar para os ares.
Cheio de dedos, o advogado do 309 disse que a época da subversão tinha passado havia muito, lembrou que há mais de duas décadas estamos numa democracia, com o presidente, - aliás, a presidente - eleita pelo povo.
- Demais a mais – ponderou – ele já teve tempo suficiente para jogar a tal bomba... se a guardasse consigo, bem entendido.
- Bem – de novo o síndico -, o que fazemos?
As opiniões se dividiram entre chamar a polícia e a televisão. O síndico atendeu a todos – convocou a televisão e a polícia.
A turma da reportagem chegou logo, a da lei nem tanto. Técnicos, cinegrafista e repórter a postos, dois policiais se aproximaram do homem e o ergueram na marra. Ele então, bruscamente, como se um susto o tivesse acordado, desarmou um dos policiais, enfiou o revólver na boca e disparou.
Morreu em cima da mala aberta.


A Bíblia tem razão
Sem qualquer intimidade com John Lennon, autor da frase “a mulher é o negro do mundo”, a doméstica Celina Garcia me disse dias atrás que a mulher não passa de escrava do homem. “Os homens”, emendou com veemência, “são todos iguais.”
Os homens são todos iguais, bom título de livro, pensei. Unindo minha simpatia, real, pelo feminismo à necessidade de mudar de carro e de casa, e ao desejo de passar larga temporada no exterior, eu poderia escrever um livro pretensamente feminista, endereçado ao público menos exigente. Algo no gênero best seller americano, sob medida para se eternizar na lista dos mais vendidos e ser traduzido mundo afora.
Usaria pseudônimo feminino (ganharia em autenticidade) e, para mostrar quão velhas e profundas são as raízes do machismo, embrulharia minhas bobagens nas sedas da erudição. Entre outras obras, evocaria o Corão – as mulheres estão dois degraus abaixo; a Odisséia – Agamémnon diz a Ulisses, no Hades, que Clitemnestra, ao matá-lo, “lançou a infâmia sobre si e sobre as mulheres vindouras, até mesmo sobre as mais honestas”; e, fecho de ouro, a Bíblia, riquíssima em episódios antifeministas.
Brincadeira, jamais escreverei esse livro. Mas, se lembrei a Bíblia, transcrevo o versículo 24 do capítulo 25 de Provérbios: “Melhor é morar num canto de terraço do que na casa espaçosa de uma mulher briguenta.”
Aqui, as feministas radicais que me perdoem, a Bíblia tem toda razão.

sábado, 4 de junho de 2011

Leminski

       Sete de junho de 1989, dia da morte de Paulo Leminski. Morreu aos 44 anos, pouco mais de 32 depois de ter aparecido – em março de 1957 – no Colégio Paranaense, dos irmãos maristas, um dos mais tradicionais de Curitiba, onde eu estava desde 55. Ambos na segunda série do ginásio, ficamos em turmas diferentes.
Leminski tornou-se logo popular, não só porque, de físico avantajado, gostava de lutar, se não me engano, boxe, mas sobretudo porque tinha lido muito mais que todos nós, sabia latim a ponto de discutir com os professores e, de quebra, não se saía mal em grego.
Na volta das férias de julho, correu que ele descobrira sua vocação religiosa: no ano seguinte, iniciaria a formação de beneditino em São Paulo. Os mais chegados o cercaram no recreio e ouviram não apenas a confirmação da notícia, mas minuciosa explanação sobre as rígidas normas seguidas pelos monges, sem qualquer alteração desde São Bento. Da voz e do olhar de Leminski brotava a força dos escolhidos.
Até o fim das aulas, em dezembro, sua ida para o mosteiro foi assunto. No começo lhe perguntávamos se era para valer, depois incorporamos a idéia. “É o desejo de Deus”, diziam os professores; e os alunos que tinham fé repetiam a frase.
Em 58, Leminski em São Paulo, quase não se falou nele. Terminado o período letivo, vou eu um dia pela Rua 15 de Novembro (mais tarde, Rua das Flores), numa esquina esbarro em três ou quatro caras barulhentos, todos de cabeça raspada a zero e calça de brim coringa (antepassada da jeans). Bem como mandava a moda jovem, pelo menos em Curitiba. Um deles abriu os braços, gritou meu nome. Atônito, o abracei.
- Paulo Leminski!
Ele engatou uma risada gutural, sua nova marca registrada.
- Solto no mundo.
- E os beneditinos?
- Eles lá, eu aqui. Acordar às quatro da madrugada não é comigo.
Voltou para o Colégio Paranaense e agora, 1959, quarta série ginasial, fomos colegas de turma e de diretoria do Grêmio Literário Rui Barbosa. Não me lembro se Leminski desacreditara de Deus, mas da religiosidade antiga não havia vestígios.
Em 60, primeiro ano do Científico, eu cursei a Turma A, ele a B. Em 61, coincidiu de trocarmos o Colégio Paranaense pelo Colégio Estadual do Paraná. Nesse ano e no seguinte, convivemos bastante. Falávamos de literatura (muito) e dos maristas (mal). Às vezes eu passava em sua casa e íamos ver o movimento na Rua 15. Ele sempre levava um livro, de preferência a capa combinando com a roupa. “Para impressionar”, dizia. Ríamos desse seu recurso. Aliás, ríamos de tudo.
Em 63 vim fazer jornalismo no Rio e, durante anos, não ouvi falar em Leminski. No início dos 70, chefiava a reportagem numa revista dos Bloch, num fim de expediente Carlos Heitor Cony, então editor de Ele-Ela, me perguntou se eu tinha algum trabalho para oferecer a um rapaz de Curitiba, poeta e escritor talentoso, recém-chegado ao Rio.
Leminski havia emagrecido, demais até, e cultivava um bigode de pontas caídas, à oriental. “O Rio corroi, sou polaco curitibano”, me disse num domingo de almoço e cerveja em minha casa. Conversamos sobre a vida e o casamento, a poesia e o seu Catatau, praticamente pronto, a Igreja e os maristas (para variar, baixamos o porrete), a maconha e o ácido - as drogas da época. De tudo que dissemos, me impressionou o desejo de Leminski de não envelhecer. Citou Janis Joplin, “não quero acabar na cadeira de balanço da vovó”.
O polaco curitibano não se demorou por aqui. Voltou para o sul e de lá deu seu voo literário. Não o vi mais. No fim da década de 80, noite de plantão no Jornal do Brasil, atendi o telefonema de uma colega de São Paulo: “Ainda dá pra mexer no obituário?” Morreu um grande amigo meu, talvez você já tenha ouvido falar nele.”
Fiquei pensando nas coincidências da vida. Anos depois, de passagem por Curitiba, soube que a Prefeitura dera a um novo local de shows ao ar livre, onde existira uma pedreira, o nome de Pedreira Paulo Leminski.
Homenagem perfeita. Leminski não era praça, rua ou avenida. Era diferente.

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Comemoração - Amanhã, dia 5, fará três meses que me operei. A cirurgia e a internação inspiraram o texto inaugural do Brava Palavra, “A próstata, essa porcaria”, postado a 4 de abril. Três meses da cirurgia (fim do período de luz amarela), dois do blog, neste fim de semana vou tomar guaraná com pizza. 

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PROSEMAS
(Os Prosemas podem até parecer poesia, mas não são.
São apenas exercícios de escrita. Nada mais que exercícios de escrita)


Tempo
Outono inverno primavera verão.
Desfolhado abrigado florido desnudo
O tédio de esperar.
 (março/87)

Cegos
E os pessimistas insistem que o homem
Não deu certo.
Esquecidos, certamente, de que já se inventou
o olho de vidro.
(abril/87)

A dois
À mulher cabe
fingir o orgasmo.
Ao homem, fingir
que não percebe
o fingimento dela.
(novembro/07)

sábado, 28 de maio de 2011

Lembranças no engarrafamento

      Se não morreu, dona Emília há muito já passou dos oitenta. Por onde andará? Me lembro dela ao cair preso num engarrafamento bem em frente ao prédio em que ela morava, na Rua Marquês de Abrantes, Flamengo.
Foi meu primeiro endereço no Rio. Chegado de Curitiba, uma parente me levou a dona Emília.
- Você me paga 18 mil cruzeiros por mês – ela disse – e recebe quarto e banho, café da manhã, almoço e jantar, roupa lavada e passada, mais telefone. Mas o telefone não é pra papo com namorada ou amigo, é pra dar ou pegar recado. E não pode andar só de cueca fora do quarto.
Topei, avisei o pai que os 20 mil combinados de mesada eram pouco, eu precisava de 30 mil. Tudo certo, me inscrevi no vestibular de Jornalismo da Faculdade Nacional de Filosofia (a famosa FNFi da Universidade do Brasil (hoje, UFRJ) e comecei a desbravar o Rio de Janeiro.
Em pouco tempo, com meus olhos provincianos, percebi que o inusitado não estava apenas nas ruas, praças e praias da cidade. Habitava também o apartamento de dona Emília, num 11º andar.
Dona Emília dava aulas particulares para adultos que queriam se alfabetizar ou fazer o admissão ao ginásio – empregadas domésticas, na maioria – e vivia com um sujeito 13 anos mais novo que ela.
Sem ter onde cair duro e de uma ignorância imensa, o cara era tão ou mais reacionário que a mais reacionária elite da época, contra todas as reformas propostas pelo Governo João Goulart (voto ao analfabeto, reforma agrária etc). Costumávamos discutir. No dia 1º de abril de 1964, quando os militares mergulharam o Brasil nas trevas, ele me recebeu eufórico.
- Moscouzinho, vocês se ferraram. Agora é a nossa hora.
Achei que, sem demonstrar temor, devia procurar outro pouso. De noite, conversei sobre isso com Joãozinho, o sobrinho de dona Emília que morava conosco. Ele, ignorante como o tio postiço, também me achava meio comuna, mas, além de amigo, não estava nem aí para o que ocorria no país. O seu negócio eram as corridas na Gávea. Bancário encostado na Previdência por causa de uma úlcera, passava os dias colado ao rádio, ouvindo os programas de turfe e sonhando com uma aposta milionária que o livrasse definitivamente da falta de dinheiro. Às vezes pedia algum à tia.
- Pra quê – ela se exaltava -, pra meter no cu dos cavalos?
 Ríamos do jeito desabrido de dona Emília e, aproveitando o momento de leveza, Joãozinho perguntava se eu não lhe arranjaria a grana. Eu dizia que não tinha, e quase sempre era verdade, os 12 mil cruzeiros que sobravam da mesada enviada pelo pai davam na medida para o ônibus, o cigarro (eu fumava), o cinema semanal e um ou dois livros por mês.
Certo dia, Joãozinho me induziu a uma aposta, não me lembro de quanto. De posse do programa dominical do Jóquei, eu diria o nome dos cavalos inscritos, do primeiro ao último pareio, na ordem que quisesse, e ele responderia com o nome do pai, da mãe e dos irmãos, próprios (mesmo pai e mesma mãe) ou não.
- Se eu errar os pais e os irmãos de uma cavalo que seja, perco o dinheiro.
Acertou de cabo a rabo e, feliz da vida, foi fazer sua fezinha.Voltou cabisbaixo. De novo se dera mal.
Naquela noite de 1º de abril em que o companheiro de dona Emília me chamou de Moscouzinho, Joãozinho concordou que eu devia me mudar.
- Sai antes que esse cara te apronte alguma. Ele é perigoso.
Exagero do Joãozinho. O cara era apenas um pobre coitado. Os perigosos de verdade eu conheceria mais tarde, sobretudo depois do AI5, em 68. Mesmo sem uma atividade política que me transformasse em perseguido do regime, andei esbarrando em figuras tenebrosas.
Mas isso é assunto para outra crônica. Por ora, no meio do engarrafamento na Marquês de Abrantes, fico na pergunta lá de cima: por onde andará dona Emília?   

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Em Roma, o papa mandou fechar o mosteiro da Basílica da Santa Cruz de Jerusalém, porque as freiras dançavam nas cerimônias litúrgicas. Em Dom Pedrito (RS), o Exército abriu inquérito para apurar o caso de seis soldados que dançavam ao som do Hino Nacional em versão funk (o vídeo, na internet, é ótimo). Como sempre, basta o corpo se libertar que o Poder entra de sola. O corpo é o grande inimigo.

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Dizem as investigações que a queda no Atlântico do avião da Air France, em 31 de maio de 2009, durou três minutos e meio. Para as 228 pessoas a bordo, uma eternidade. 

sábado, 21 de maio de 2011

De coração

      Foram três anos ótimos, de entendimento em todos os níveis. Um dia, de estalo, ela avisou que não queria mais. Uma bomba na cabeça dele. O desenlace durou semanas, ela se retirando, ele insistindo.
Finalmente, o amor-próprio em frangalhos, ele reconheceu que lhe restava enfrentar a verdade. Viver a rejeição, como se dizia na época. Deixou de procurá-la e, nos seis meses seguintes, pensou nela da hora em que acordava à hora em que dormia. E, dormindo, costumava puxá-la para algum sonho.
Na manhã em que acordou com outro pensamento, emocionou-se. Caramba, sobrevivi. De noite, comemorou com dois ou três amigos do peito. Em nenhum momento, porém, achou que o amor se esgotara. Não se enganaria assim. O amor, sabia, continuava firme, apenas havia se civilizado. Ainda faltava tempo para virar lembrança.

Doze anos depois do término do namoro, esbarraram-se na Rua Conde de Bonfim. Abraçaram-se longamente e, debaixo de uma marquise, conversaram por duas horas. Ela estava casada e infeliz, ele separado e de bem com o mundo.
- Você foi a mulher mais importante de minha vida – ele disse, como se já tivesse envelhecido.
- Não brinca, é mesmo? – ela meio que riu e os olhos pesaram.
Ao se despedirem, anotaram os telefones. “Eu não vou telefonar”, ele comentou com um amigo, “o casamento dela está uma droga, não quero causar problema. Agora, se ela telefonar, não me responsabilizo.”
Ela telefonou. Saíram para almoçar, esticaram o almoço até a notinha, combinaram se rever.
Reviram-se, pontuais e alegres.
- Fui cruel contigo – ela disse.
 - Esquece – ele falou de coração.
Passaram a se encontrar no apartamento dele, quase toda manhã. Era delicioso, mas ele logo percebeu que da antiga namorada – voluntariosa, cheia de garra e vontade de viver – a amante de hoje tinha muito pouco. Deixara de dirigir porque o marido a convencera a não correr perigo no trânsito; desistira da carreira de advogada porque o marido, também advogado, não se sentia bem com tal coincidência; começara a freqüentar uma dessas seitas oportunistas porque o marido, convertido, não a admitia longe do templo.
No início, ele se recusou a acreditar em tamanha submissão.
- Absurdo. Você não está exagerando?
- Às vezes, nem eu creio que cheguei a esse grau de derrota.
- Mas o que houve, que vendaval te derrubou?
- Se eu soubesse...
- De qualquer modo, você está aqui. Comigo, não com teu marido. Telefonou, me convidou para almoçar, a derrota não é total.
- Será que não? Eu não me entendo.
Esse tipo de papo, repetitivo, o punha de mau humor. Esquisita sensação de que sofrera por alguém inexistente. Na manhã seguinte, no entanto, acordava cedo e, inquieto, esperava a campainha tocar.
Certa tarde, os dois de folga, foram ao cinema. À saída pegaram um táxi e ele a deixou perto de casa. De madrugada o telefone o acordou. No relógio de cabeceira, três e vinte. Quem morreu?, pensou ainda grogue. Era ela.
- Desculpe a hora, não pude esperar o dia amanhecer.
- O que aconteceu?
- A gente não vai se ver mais.
- Como assim?
- O Fulano nos viu quando desci do táxi e me fez jurar que não vou mais me encontrar com você.
Ele tentou argumentar, uma voz de homem o interrompeu:
- Acabou, cara, acabou.
Não retrucou. Sem bater, pôs o telefone no gancho. Dias depois, superado o choque daquela madrugada, sentiu que, agora sim, estava livre. O fantasma da juventude se esvaíra.
Chamou dois ou três amigos do peito e comemorou.

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A beleza desleixada do Campo de Santana é de comover. Eis aí uma praça sem artifícios, com a cara do povo do Rio e arredores.

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A se confirmar a veracidade do noticiário sobre o ataque do francês Dominique Strauss-Kahn a um camareira em Nova Iorque, se poderá dizer que o tempo passa e o FMI continua o mesmo - estuprando os pobres.

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PROSEMAS
(Os Prosemas podem até parecer poesia, mas não são.
São apenas exercícios de escrita. Nada mais que exercícios de escrita)

No Bar
- Minha vida, me diz o coveiro,
é de casa pro cemitério,
do cemitério pra casa.
- Compreendo, eu digo, a minha
é do escritório pra casa,
de casa pro escritório.
(abril/87)

Proust
Com o tempo,
as pessoas se recolhem
porque dói ver
a própria velhice
na cara dos amigos.
(outubro/98)

Estações
Verão na cidade,
inverno em mim.
Na cidade, inferno;
em mim, aconchego.
Outono na cidade,
primavra em mim.
Na cidade, folhas no chão;
em mim, o chão da vida.
(novembro/06)

sábado, 14 de maio de 2011

Papo de velho jornalista

      Conheço um jornalista que começou a carreira antes de a máquina de escrever chegar aos jornais cariocas. Depois precisou aprender a datilografar e, mais recentemente, a lidar com computador. Eu, quando comecei, a máquina de escrever já era conquista antiga. Novidade foi a máquina elétrica, que exige cuidado, tem-se que datilografar com suavidade, se não a tecla dispara e a letra se repete algumas vezes no papel.
Pois a máquina elétrica ainda não perdera o charme, eis que a informática entra com toda força nas redações. Jamais vou esquecer a imagem de uma colega diante do computador recém-instalado, as pernas esticadas sob a mesa, os pés apoiados na máquina – até há pouco moderníssima – deixada no chão para ser recolhida ao depósito.
Hoje cercado de computadores por todos os lados – computadores para a edição de texto, para a diagramação, para a edição de fotos – em certos momentos me pergunto: como se trabalhava antes?
Alargo a pergunta, como se vivia antes da revolução tecnológica? As coisas eram pão-pão, queijo-queijo: atividade bancária, no banco; compras, na loja; filme, no cinema. E assim por diante.
Falando em cinema, recordo uma discussão que consumiu muita pizza e muito chope, sobretudo nos bares vizinhos ao Cine Paisandu, templo da sétima arte nos anos 60. O tema, levantado se não me engano pelos Cahiers de Cinema, era o seguinte: com a popularidade da fita de vídeo (quem se lembra dela?), será mesmo possível a criação de cinematecas caseiras?
Sim, não, no Primeiro Mundo talvez – os cinéfilos se dividiam. Um dos mais respeitados críticos do Rio aprofundava a questão: “Cinema é cinema, sala escura e tela grande; televisão é televisão, luz acesa e bate-papo. Além disso o celulóide (quem se lembra dele?) tem uma doçura, uma maleabilidade  que a fita de vídeo jamais alcançará. Inadequada, portanto, ao exercício da sensibilidade cinematográfica. Concluindo, nada mudará.”  
Bonito discurso, péssima futurologia. Aliás, em qualquer área, dentro da tecnologia ou não, prever é se candidatar ao ridículo. Quem não era velho nos anos 70 se lembra bem da certeza de que o sexo livre, sem qualquer amarra, chegara para ficar, para libertar quem tivesse a coragem de jogar fora os tabus cultuados pelos pais e avós.
De repente, no início dos 80, estoura a aides* e a festa perde espaço. Surgem, quem diria?, principalmente nos Estados Unidos, movimentos em favor do amor casto, da solteirice com virgindade.  
Mas, voltando ao computador, dia desses encontrei aquele jornalista que estreou na imprensa do Rio antes da máquina de escrever. Apesar do peso da idade, ele estava animadíssimo: “Em breve”, disse, “haverá nas redações máquinas tão inteligentes que os jornais sairão sem um erro sequer.”
Pura ilusão do matusalém. O leitor que gosta de reclamar pode ficar tranquilo. Os jornais serão sempre imperfeitos. E indispensáveis.

*Por que continuar grafando Aids, se a essa altura já esquecemos que se trata de uma sigla? Virou nome, por isso proponho que se escreva aides, a inicial  minúscula, como de qualquer outra doença (câncer, tuberculose etc ) e, para aportuguesar a palavra, a inclusão da vogal e na segunda sílaba.

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Não ao cigarro - Estou completando 33 anos sem fumar. Aleluia, parabéns para mim. Eu era uma chaminé, fumava de duas a três carteiras diárias, até o dia em que, pegando no sono, acordei com o meu pigarro. Parei e transformei o lema Evite o primeiro trago, dos aocoólicos anônimos, em Evite a primeira tragada.
Sou contra toda catequese – religiosa, ideológica, sentimental – toda, menos uma, a antifumo. Irmãos, não fumem. É o vício mais porco, fedorento traiçoeiro e perverso que existe. Estou exagerando? Acho que não, mas, se estou, salve o exagero. É um vício tão demoníaco que, 33 anos depois, sei que, se acender um cigarro e tragar, corro sério risco de começar tudo de novo. Abaixo essa praga.

sábado, 7 de maio de 2011

Aventura carioca

      Nove da noite, uma transversal da Tijuca, comecei a procurar vaga para estacionar. Não demoraríamos, coisa de minutos, em último caso deixaria o carro em fila dupla. Lá na frente, no meio da rua, apareceu um rapaz, me indicou uma vaga. Até aqui, comentei com Y., tem flanelinha, mas não vou dar mais que dois reais e fim de papo. Manobrei, desliguei o farol e o motor, acionei o segredo e desci. Y. já havia descido e caminhado para junto de uma vitrine.
Fechei a porta, contornei o carro. No instante em que pisei na calçada, o rapaz me chamou, tio, olha aqui, tio. Me virei, me vi diante de um revólver, a chave, tio, a chave se não aperto. Dois outros se aproximaram, ligeiro, tio, vou apertar. Olhei rápido para Y., às minhas costas, joguei o chaveiro, o assaltante o aparou no ar. Mandou um dos comparsas me revistar, vê se ele tem arma.
- Fique tranquilo – disse ao cara -, não ando armado.
- Legal.
- Posso ir?
- Não, tio – o do revólver gritou –, não se mexa, espere a gente se afastar.
De viés, vi Y. imóvel junto à vitrine, as mãos cruzadas no peito (para eles verem  que eu também não tinha como reagir, ela me explicou mais tarde). Os três entraram no carro (e se decidem me levar?), o do revólver no banco de trás.
- Tem alarme? – perguntou.
Resolvi não bancar o esperto: - Não. Tem segredo.
- E como é?
- Destrava com a chave menor. No chão, embaixo do tapete, à direita.
O que estava ao volante não conseguiu abrir o segredo. Coitado, precisava de ajuda. Com o consentimento do líder, desalojei o motorista, pus o carro em condições de arrancar, Voltei à calçada.
- Valeu, tio, valeu mesmo.
O carro já em movimento (e se o cara atira agora?), o que estava ao lado do motorista retribuiu a gentileza.
- A gente vai resolver uma parada, ali pela meia-noite pode procurar a máquina.
- Onde, onde?
- Nos arredores da Saens Peña. Tchau, tio.
Enfim livres, Y. e eu nos abraçamos. Humilhados mas felizes por continuarmos vivos. Para amenizar a depressão, liberei o humor: tio, tio, que sobrinhos desnaturados! Rimos e fomos à delegacia. Feita a queixa, voltamos para casa e, a uma hora da manhã, revirei a área da Saens Peña à procura do carro. Perda de tempo, só eu mesmo para confiar em bandido simpático.
Quatro dias depois, porém, a grande surpresa, coincidência inacreditável: o carro estava inteiro numa ruazinha perto da Praça da Bandeira, em frente ao prédio – sério, não é invenção – em que mora uma tia minha.
Em meio à alegria provocada por tamanha sorte, tive de sofrer os trâmites burocráticos, ir algumas vezes à polícia até conseguir o chamado atestado de recuperação do veículo.
- O senhor deve carregar esse papel junto com o documento de propriedade – recomendou o policial que me atendeu. – Ainda bem que tudo terminou da melhor maneira.
- Ainda bem – concordei , quase comovido. – E muito obrigado.
Só eu mesmo para confiar em policial simpático. Meses mais tarde, ao providenciar o novo IPVA, soube que estava usando um carro roubado. Sim senhores, a recuperação não havia sido registrada no computador da polícia. Mais um banho de burocracia, a delicadeza disfarçando a raiva – por favor, seria possível?, quando então?
No dia em que finalmente o rolo acabou, jantei e fui visitar um amigo em Botafogo. Estava estacionando, ouvi uma voz adolescente, tio, tio... Gelei. Olhei à esquerda, um meninote fingia que me ajudava. Pode deixar, tio, eu tomo conta. Paga quanto quiser, aqui quem manda é o freguês.
Respirei aliviado, saí assobiando Cidade Maravilhosa.

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O mesmo disco - Anos atrás, quando da aprovação da lei do divórcio, católicos e evangélicos anunciaram o fim iminente da família. Agora, com o STF assegurando o direito de união estável para os homossexuais, evangélicos e católicos gritam que a destruição da família não tarda. Quanta falta de imaginação! Haja paciência.

(Na verdade, em questões morais, mesmo os grupos religiosos mais avançados ficam, como diz um amigo meu, na retaguarda – na retaguarda da vanguarda).