sábado, 28 de maio de 2011

Lembranças no engarrafamento

      Se não morreu, dona Emília há muito já passou dos oitenta. Por onde andará? Me lembro dela ao cair preso num engarrafamento bem em frente ao prédio em que ela morava, na Rua Marquês de Abrantes, Flamengo.
Foi meu primeiro endereço no Rio. Chegado de Curitiba, uma parente me levou a dona Emília.
- Você me paga 18 mil cruzeiros por mês – ela disse – e recebe quarto e banho, café da manhã, almoço e jantar, roupa lavada e passada, mais telefone. Mas o telefone não é pra papo com namorada ou amigo, é pra dar ou pegar recado. E não pode andar só de cueca fora do quarto.
Topei, avisei o pai que os 20 mil combinados de mesada eram pouco, eu precisava de 30 mil. Tudo certo, me inscrevi no vestibular de Jornalismo da Faculdade Nacional de Filosofia (a famosa FNFi da Universidade do Brasil (hoje, UFRJ) e comecei a desbravar o Rio de Janeiro.
Em pouco tempo, com meus olhos provincianos, percebi que o inusitado não estava apenas nas ruas, praças e praias da cidade. Habitava também o apartamento de dona Emília, num 11º andar.
Dona Emília dava aulas particulares para adultos que queriam se alfabetizar ou fazer o admissão ao ginásio – empregadas domésticas, na maioria – e vivia com um sujeito 13 anos mais novo que ela.
Sem ter onde cair duro e de uma ignorância imensa, o cara era tão ou mais reacionário que a mais reacionária elite da época, contra todas as reformas propostas pelo Governo João Goulart (voto ao analfabeto, reforma agrária etc). Costumávamos discutir. No dia 1º de abril de 1964, quando os militares mergulharam o Brasil nas trevas, ele me recebeu eufórico.
- Moscouzinho, vocês se ferraram. Agora é a nossa hora.
Achei que, sem demonstrar temor, devia procurar outro pouso. De noite, conversei sobre isso com Joãozinho, o sobrinho de dona Emília que morava conosco. Ele, ignorante como o tio postiço, também me achava meio comuna, mas, além de amigo, não estava nem aí para o que ocorria no país. O seu negócio eram as corridas na Gávea. Bancário encostado na Previdência por causa de uma úlcera, passava os dias colado ao rádio, ouvindo os programas de turfe e sonhando com uma aposta milionária que o livrasse definitivamente da falta de dinheiro. Às vezes pedia algum à tia.
- Pra quê – ela se exaltava -, pra meter no cu dos cavalos?
 Ríamos do jeito desabrido de dona Emília e, aproveitando o momento de leveza, Joãozinho perguntava se eu não lhe arranjaria a grana. Eu dizia que não tinha, e quase sempre era verdade, os 12 mil cruzeiros que sobravam da mesada enviada pelo pai davam na medida para o ônibus, o cigarro (eu fumava), o cinema semanal e um ou dois livros por mês.
Certo dia, Joãozinho me induziu a uma aposta, não me lembro de quanto. De posse do programa dominical do Jóquei, eu diria o nome dos cavalos inscritos, do primeiro ao último pareio, na ordem que quisesse, e ele responderia com o nome do pai, da mãe e dos irmãos, próprios (mesmo pai e mesma mãe) ou não.
- Se eu errar os pais e os irmãos de uma cavalo que seja, perco o dinheiro.
Acertou de cabo a rabo e, feliz da vida, foi fazer sua fezinha.Voltou cabisbaixo. De novo se dera mal.
Naquela noite de 1º de abril em que o companheiro de dona Emília me chamou de Moscouzinho, Joãozinho concordou que eu devia me mudar.
- Sai antes que esse cara te apronte alguma. Ele é perigoso.
Exagero do Joãozinho. O cara era apenas um pobre coitado. Os perigosos de verdade eu conheceria mais tarde, sobretudo depois do AI5, em 68. Mesmo sem uma atividade política que me transformasse em perseguido do regime, andei esbarrando em figuras tenebrosas.
Mas isso é assunto para outra crônica. Por ora, no meio do engarrafamento na Marquês de Abrantes, fico na pergunta lá de cima: por onde andará dona Emília?   

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Em Roma, o papa mandou fechar o mosteiro da Basílica da Santa Cruz de Jerusalém, porque as freiras dançavam nas cerimônias litúrgicas. Em Dom Pedrito (RS), o Exército abriu inquérito para apurar o caso de seis soldados que dançavam ao som do Hino Nacional em versão funk (o vídeo, na internet, é ótimo). Como sempre, basta o corpo se libertar que o Poder entra de sola. O corpo é o grande inimigo.

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Dizem as investigações que a queda no Atlântico do avião da Air France, em 31 de maio de 2009, durou três minutos e meio. Para as 228 pessoas a bordo, uma eternidade. 

sábado, 21 de maio de 2011

De coração

      Foram três anos ótimos, de entendimento em todos os níveis. Um dia, de estalo, ela avisou que não queria mais. Uma bomba na cabeça dele. O desenlace durou semanas, ela se retirando, ele insistindo.
Finalmente, o amor-próprio em frangalhos, ele reconheceu que lhe restava enfrentar a verdade. Viver a rejeição, como se dizia na época. Deixou de procurá-la e, nos seis meses seguintes, pensou nela da hora em que acordava à hora em que dormia. E, dormindo, costumava puxá-la para algum sonho.
Na manhã em que acordou com outro pensamento, emocionou-se. Caramba, sobrevivi. De noite, comemorou com dois ou três amigos do peito. Em nenhum momento, porém, achou que o amor se esgotara. Não se enganaria assim. O amor, sabia, continuava firme, apenas havia se civilizado. Ainda faltava tempo para virar lembrança.

Doze anos depois do término do namoro, esbarraram-se na Rua Conde de Bonfim. Abraçaram-se longamente e, debaixo de uma marquise, conversaram por duas horas. Ela estava casada e infeliz, ele separado e de bem com o mundo.
- Você foi a mulher mais importante de minha vida – ele disse, como se já tivesse envelhecido.
- Não brinca, é mesmo? – ela meio que riu e os olhos pesaram.
Ao se despedirem, anotaram os telefones. “Eu não vou telefonar”, ele comentou com um amigo, “o casamento dela está uma droga, não quero causar problema. Agora, se ela telefonar, não me responsabilizo.”
Ela telefonou. Saíram para almoçar, esticaram o almoço até a notinha, combinaram se rever.
Reviram-se, pontuais e alegres.
- Fui cruel contigo – ela disse.
 - Esquece – ele falou de coração.
Passaram a se encontrar no apartamento dele, quase toda manhã. Era delicioso, mas ele logo percebeu que da antiga namorada – voluntariosa, cheia de garra e vontade de viver – a amante de hoje tinha muito pouco. Deixara de dirigir porque o marido a convencera a não correr perigo no trânsito; desistira da carreira de advogada porque o marido, também advogado, não se sentia bem com tal coincidência; começara a freqüentar uma dessas seitas oportunistas porque o marido, convertido, não a admitia longe do templo.
No início, ele se recusou a acreditar em tamanha submissão.
- Absurdo. Você não está exagerando?
- Às vezes, nem eu creio que cheguei a esse grau de derrota.
- Mas o que houve, que vendaval te derrubou?
- Se eu soubesse...
- De qualquer modo, você está aqui. Comigo, não com teu marido. Telefonou, me convidou para almoçar, a derrota não é total.
- Será que não? Eu não me entendo.
Esse tipo de papo, repetitivo, o punha de mau humor. Esquisita sensação de que sofrera por alguém inexistente. Na manhã seguinte, no entanto, acordava cedo e, inquieto, esperava a campainha tocar.
Certa tarde, os dois de folga, foram ao cinema. À saída pegaram um táxi e ele a deixou perto de casa. De madrugada o telefone o acordou. No relógio de cabeceira, três e vinte. Quem morreu?, pensou ainda grogue. Era ela.
- Desculpe a hora, não pude esperar o dia amanhecer.
- O que aconteceu?
- A gente não vai se ver mais.
- Como assim?
- O Fulano nos viu quando desci do táxi e me fez jurar que não vou mais me encontrar com você.
Ele tentou argumentar, uma voz de homem o interrompeu:
- Acabou, cara, acabou.
Não retrucou. Sem bater, pôs o telefone no gancho. Dias depois, superado o choque daquela madrugada, sentiu que, agora sim, estava livre. O fantasma da juventude se esvaíra.
Chamou dois ou três amigos do peito e comemorou.

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A beleza desleixada do Campo de Santana é de comover. Eis aí uma praça sem artifícios, com a cara do povo do Rio e arredores.

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A se confirmar a veracidade do noticiário sobre o ataque do francês Dominique Strauss-Kahn a um camareira em Nova Iorque, se poderá dizer que o tempo passa e o FMI continua o mesmo - estuprando os pobres.

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PROSEMAS
(Os Prosemas podem até parecer poesia, mas não são.
São apenas exercícios de escrita. Nada mais que exercícios de escrita)

No Bar
- Minha vida, me diz o coveiro,
é de casa pro cemitério,
do cemitério pra casa.
- Compreendo, eu digo, a minha
é do escritório pra casa,
de casa pro escritório.
(abril/87)

Proust
Com o tempo,
as pessoas se recolhem
porque dói ver
a própria velhice
na cara dos amigos.
(outubro/98)

Estações
Verão na cidade,
inverno em mim.
Na cidade, inferno;
em mim, aconchego.
Outono na cidade,
primavra em mim.
Na cidade, folhas no chão;
em mim, o chão da vida.
(novembro/06)

sábado, 14 de maio de 2011

Papo de velho jornalista

      Conheço um jornalista que começou a carreira antes de a máquina de escrever chegar aos jornais cariocas. Depois precisou aprender a datilografar e, mais recentemente, a lidar com computador. Eu, quando comecei, a máquina de escrever já era conquista antiga. Novidade foi a máquina elétrica, que exige cuidado, tem-se que datilografar com suavidade, se não a tecla dispara e a letra se repete algumas vezes no papel.
Pois a máquina elétrica ainda não perdera o charme, eis que a informática entra com toda força nas redações. Jamais vou esquecer a imagem de uma colega diante do computador recém-instalado, as pernas esticadas sob a mesa, os pés apoiados na máquina – até há pouco moderníssima – deixada no chão para ser recolhida ao depósito.
Hoje cercado de computadores por todos os lados – computadores para a edição de texto, para a diagramação, para a edição de fotos – em certos momentos me pergunto: como se trabalhava antes?
Alargo a pergunta, como se vivia antes da revolução tecnológica? As coisas eram pão-pão, queijo-queijo: atividade bancária, no banco; compras, na loja; filme, no cinema. E assim por diante.
Falando em cinema, recordo uma discussão que consumiu muita pizza e muito chope, sobretudo nos bares vizinhos ao Cine Paisandu, templo da sétima arte nos anos 60. O tema, levantado se não me engano pelos Cahiers de Cinema, era o seguinte: com a popularidade da fita de vídeo (quem se lembra dela?), será mesmo possível a criação de cinematecas caseiras?
Sim, não, no Primeiro Mundo talvez – os cinéfilos se dividiam. Um dos mais respeitados críticos do Rio aprofundava a questão: “Cinema é cinema, sala escura e tela grande; televisão é televisão, luz acesa e bate-papo. Além disso o celulóide (quem se lembra dele?) tem uma doçura, uma maleabilidade  que a fita de vídeo jamais alcançará. Inadequada, portanto, ao exercício da sensibilidade cinematográfica. Concluindo, nada mudará.”  
Bonito discurso, péssima futurologia. Aliás, em qualquer área, dentro da tecnologia ou não, prever é se candidatar ao ridículo. Quem não era velho nos anos 70 se lembra bem da certeza de que o sexo livre, sem qualquer amarra, chegara para ficar, para libertar quem tivesse a coragem de jogar fora os tabus cultuados pelos pais e avós.
De repente, no início dos 80, estoura a aides* e a festa perde espaço. Surgem, quem diria?, principalmente nos Estados Unidos, movimentos em favor do amor casto, da solteirice com virgindade.  
Mas, voltando ao computador, dia desses encontrei aquele jornalista que estreou na imprensa do Rio antes da máquina de escrever. Apesar do peso da idade, ele estava animadíssimo: “Em breve”, disse, “haverá nas redações máquinas tão inteligentes que os jornais sairão sem um erro sequer.”
Pura ilusão do matusalém. O leitor que gosta de reclamar pode ficar tranquilo. Os jornais serão sempre imperfeitos. E indispensáveis.

*Por que continuar grafando Aids, se a essa altura já esquecemos que se trata de uma sigla? Virou nome, por isso proponho que se escreva aides, a inicial  minúscula, como de qualquer outra doença (câncer, tuberculose etc ) e, para aportuguesar a palavra, a inclusão da vogal e na segunda sílaba.

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Não ao cigarro - Estou completando 33 anos sem fumar. Aleluia, parabéns para mim. Eu era uma chaminé, fumava de duas a três carteiras diárias, até o dia em que, pegando no sono, acordei com o meu pigarro. Parei e transformei o lema Evite o primeiro trago, dos aocoólicos anônimos, em Evite a primeira tragada.
Sou contra toda catequese – religiosa, ideológica, sentimental – toda, menos uma, a antifumo. Irmãos, não fumem. É o vício mais porco, fedorento traiçoeiro e perverso que existe. Estou exagerando? Acho que não, mas, se estou, salve o exagero. É um vício tão demoníaco que, 33 anos depois, sei que, se acender um cigarro e tragar, corro sério risco de começar tudo de novo. Abaixo essa praga.

sábado, 7 de maio de 2011

Aventura carioca

      Nove da noite, uma transversal da Tijuca, comecei a procurar vaga para estacionar. Não demoraríamos, coisa de minutos, em último caso deixaria o carro em fila dupla. Lá na frente, no meio da rua, apareceu um rapaz, me indicou uma vaga. Até aqui, comentei com Y., tem flanelinha, mas não vou dar mais que dois reais e fim de papo. Manobrei, desliguei o farol e o motor, acionei o segredo e desci. Y. já havia descido e caminhado para junto de uma vitrine.
Fechei a porta, contornei o carro. No instante em que pisei na calçada, o rapaz me chamou, tio, olha aqui, tio. Me virei, me vi diante de um revólver, a chave, tio, a chave se não aperto. Dois outros se aproximaram, ligeiro, tio, vou apertar. Olhei rápido para Y., às minhas costas, joguei o chaveiro, o assaltante o aparou no ar. Mandou um dos comparsas me revistar, vê se ele tem arma.
- Fique tranquilo – disse ao cara -, não ando armado.
- Legal.
- Posso ir?
- Não, tio – o do revólver gritou –, não se mexa, espere a gente se afastar.
De viés, vi Y. imóvel junto à vitrine, as mãos cruzadas no peito (para eles verem  que eu também não tinha como reagir, ela me explicou mais tarde). Os três entraram no carro (e se decidem me levar?), o do revólver no banco de trás.
- Tem alarme? – perguntou.
Resolvi não bancar o esperto: - Não. Tem segredo.
- E como é?
- Destrava com a chave menor. No chão, embaixo do tapete, à direita.
O que estava ao volante não conseguiu abrir o segredo. Coitado, precisava de ajuda. Com o consentimento do líder, desalojei o motorista, pus o carro em condições de arrancar, Voltei à calçada.
- Valeu, tio, valeu mesmo.
O carro já em movimento (e se o cara atira agora?), o que estava ao lado do motorista retribuiu a gentileza.
- A gente vai resolver uma parada, ali pela meia-noite pode procurar a máquina.
- Onde, onde?
- Nos arredores da Saens Peña. Tchau, tio.
Enfim livres, Y. e eu nos abraçamos. Humilhados mas felizes por continuarmos vivos. Para amenizar a depressão, liberei o humor: tio, tio, que sobrinhos desnaturados! Rimos e fomos à delegacia. Feita a queixa, voltamos para casa e, a uma hora da manhã, revirei a área da Saens Peña à procura do carro. Perda de tempo, só eu mesmo para confiar em bandido simpático.
Quatro dias depois, porém, a grande surpresa, coincidência inacreditável: o carro estava inteiro numa ruazinha perto da Praça da Bandeira, em frente ao prédio – sério, não é invenção – em que mora uma tia minha.
Em meio à alegria provocada por tamanha sorte, tive de sofrer os trâmites burocráticos, ir algumas vezes à polícia até conseguir o chamado atestado de recuperação do veículo.
- O senhor deve carregar esse papel junto com o documento de propriedade – recomendou o policial que me atendeu. – Ainda bem que tudo terminou da melhor maneira.
- Ainda bem – concordei , quase comovido. – E muito obrigado.
Só eu mesmo para confiar em policial simpático. Meses mais tarde, ao providenciar o novo IPVA, soube que estava usando um carro roubado. Sim senhores, a recuperação não havia sido registrada no computador da polícia. Mais um banho de burocracia, a delicadeza disfarçando a raiva – por favor, seria possível?, quando então?
No dia em que finalmente o rolo acabou, jantei e fui visitar um amigo em Botafogo. Estava estacionando, ouvi uma voz adolescente, tio, tio... Gelei. Olhei à esquerda, um meninote fingia que me ajudava. Pode deixar, tio, eu tomo conta. Paga quanto quiser, aqui quem manda é o freguês.
Respirei aliviado, saí assobiando Cidade Maravilhosa.

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O mesmo disco - Anos atrás, quando da aprovação da lei do divórcio, católicos e evangélicos anunciaram o fim iminente da família. Agora, com o STF assegurando o direito de união estável para os homossexuais, evangélicos e católicos gritam que a destruição da família não tarda. Quanta falta de imaginação! Haja paciência.

(Na verdade, em questões morais, mesmo os grupos religiosos mais avançados ficam, como diz um amigo meu, na retaguarda – na retaguarda da vanguarda).
     

sábado, 30 de abril de 2011

Será que já estive em Paris?

       Um 1º de Maio perfeito, no céu sol de primavera, na rua o povo flanando. Instruído pelo funcionário do balcão de informações do aeroporto, fiz baldeação em Chatêlet e, agora na calçada da estação Odeon, mala e maleta nas mãos, eu não sabia se o Hotel de La Faculté, Rue Racine nº 5, ficava para a esquerda ou para a direita. No meu francês paupérrimo, perguntei a um rapaz alourado que direção tomar, ele não sabia. Me socorreu uma jovem oriental, creio que vietnamita, de francês pior que o meu: a Rue Racine era para a direita.
Na portaria do hotel, vagabundíssimo e baratíssimo, encontrei um sujeito moreno. Na minha terceira tentativa de formar uma frase, me perguntou em português de que cidade eu era, brasileiro ele também, se não me engano, de Santos. Deixei a bagagem no quarto, desci, me instalei no Café du Cluny, esquina de Saint Michel com Saint Germain, e, em êxtase, pedi um branco seco. Eram oito e tanto da noite, e o sol insistia. Comigo mesmo, brindei ao socialismo de François Mitterrand, que estava no início do seu primeiro mandato.
Dia seguinte levantei cedo, tomei café e procurei o Sena. Na cabeceira da ponte próxima à Notre Dame, abri o mapa da cidade, para onde ir?, uma senhora impecavelmente vestida se aproximou, me cumprimentou, perguntou se eu desejava alguma informação. Respondi que não, merci bien, ela se foi. Me emocionei, na minha primeira manhã em Paris alguém oferecia ajuda. Atravessei a ponte e me vi em frente ao Hotel de Ville (a prefeitura) e ao Ministério da Justiça.
Junto ao portal do ministério havia uma seta, Sainte Chapelle. Sem saber do que se tratava, mas intuindo que valia a pena conferir, entrei, comprei um tíquete e descobri uma capela maravilhosa, de dois andares, construída nos anos 1400, o Brasil nem existia, e iluminada apenas pela luz natural que furava os vitrais.
Nos sete dias seguintes, um quarto da excursão europeia que as férias me permitam, percorri Paris de norte a sul, de leste a oeste, por cima e por baixo, o mapa do metrô no bolso, dando prioridade, claro, ao Quartier Latin, o bairro boêmio e, no Quartier, aos bares recomendados por amigos, o Lippe, o Deux Magots, o Café de Flore, onde Hemingway, Sartre e vários outros tinham se embebedado e discutido literatura e filosofia. E ainda sobrou tempo para alguns museus, entre eles o Jeu de Paume, que na época abrigava os impressionistas, e o Louvre, com a Gioconda e a Vênus de Milo. Em resumo, roteiro típico de neófito.
Depois dessa iniciação, nas outras estadas na cidade, procurei, sempre a partir da Sainte Chapelle, incursões menos turísticas. E, parafraseando o poeta Paulo Mendes  Campos que, embasbacado com a grandiosidade do À la recherhe du temps perdu, disse (cito de memória) “já li Proust não sei quantas vezes, mas será que li Proust?”, me pergunto: será que já estive em Paris?
É tomado por essa dúvida que sonho com a próxima ida (quando, quando?). Como nas anteriores, visitarei logo a Sainte Chapelle e, em seguida, passarei pela Rue Francisque Gay, perpendicular à Saint Michel, me perguntando se essa Francisque era parente do cônego Jean Pierre Gay, que no século 19, veio para o Brasil como missionário e, com a colaboração de uma índia paraguaia, teve dez filhos, um deles meu avô.
No vaivem de viajante sem obrigações, alheio aos cuidados a que normalmente me submeto, abusarei do bom vinho e da boa comida. E assim, gordo e indolente, mais marabá do que nunca (ao dicionário, ao dicionário), pensarei em, na volta, escrever uma crônica tão deslumbrada quanto esta.

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A arrumadeira do Hotel de La Faculté, Jaqueline, morava na banlieu (a periferia da cidade) e, graças ao metrô, chegava ao trabalho, no Centro, em meia hora. Privilegiada como os trabalhadores daqui, não é mesmo?

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Aos 99 anos, morreu Ernesto Sábato, um dos grandes escritores argentinos da atualidade e um símbolo da luta contra a ditadura dos assassinos fardados. O fim de semana começou triste.      


sábado, 23 de abril de 2011

Ressurreição

       Papai Noel existia, eu o tinha visto numa loja – a barba branca, o cajado, a roupa vermelha -, ele até perguntou meu nome. Mas a história do coelhinho que deixava os ovos de chocolate debaixo da cama das crianças obedientes era absurda.
Convencido de que me iludiam, desafiei os adultos de casa, não há coelhinho nenhum, quem aposta comigo? Apostamos dois cruzeiros, eu contra o resto da família. Audacioso, avisei que de sábado para domingo não dormiria, pronto para flagrar o mentiroso que entrasse macio no quarto, a cestinha de chocolate na mão.
Ninguém acreditava que eu varasse a noite acordado, mas o fato é que, por respeito à minha firmeza de criança, ou, sei lá, por medo da desmoralização, os adultos se renderam – pois bem, não há coelhinho.
Ah é, e os dois cruzeiros? Peguei a moeda, corri ao bar da esquina, comprei quatro caixinhas de chiclete de hortelã. A delícia quadruplicada. Me proibiam de mascar chiclete, estragava os dentes e colava no estômago, mas, naquele dia de glória, ninguém teve a coragem de me contrariar.
Anos mais tarde, no colégio marista, Papai Noel também rifado, me disseram que no domingo de Páscoa Jesus ressuscitara e ascendera aos céus. Este e outros ensinamentos desfiados nas aulas de religião – o mistério da Santíssima Trindade, Adão e Eva, a virgindade de Maria, o perigo do pecado (pecava-se por ações e por maus pensamentos), o Juízo Final – me transportavam para a já surrada história do coelhinho. Difícil crer.
Mas não crer também era difícil, quem não cresse, dizia o catecismo, conheceria o fogo ininterrupto do inferno. E sem direito a chiclete de hortelã, brincava com meus diabinhos.
Não dava para brincar o tempo todo, a ameaça do castigo eterno assustava. E se eu estivesse errado, eu que relutava em acreditar em Deus, uno ou trino, eu que quase só tinha maus pensamentos – incontroláveis, maravilhosos. Condenado para sempre? O medo provocava arrepios.
Até que um dia veio a luz: jamais terei certeza da existência ou não de Deus, negá-lo é tão pretensioso quanto afirmá-lo, de indubitável mesmo só a dúvida. Logo, a ordem é relaxar e viver da maneira mais digna possível.
Sem saber, me tornara agnóstico, encontrara minha fé, que às vezes, em momentos de preguiça ou megalomania, troco pela simplificação do ateísmo.
Havia entretanto outros deuses. No primeiro ano de faculdade, os olhos da primeira juventude escancarados para o mundo, um colega mais velho, hoje historiador citado, me garantiu que o comunismo era o estuário natural da humanidade. Ousei perguntar-lhe de onde vinha tanta segurança, ele fulminou: “Bolas, nenhum país que abandonou o capitalismo voltou atrás.”
Em 91, em Berlim, ao encontrar camelôs oferecendo pedaços de pedra ou cimento que teriam sido do Muro, e mais fardas e objetos de soldados soviéticos que partiram ou desertaram, pensei em comprar uma bota furada e enviá-la ao nosso historiador.
Ele certamente não entenderia, não nos víamos havia vinte e tantos anos. Aliás, acho que depois daquela nossa conversa, não voltamos a nos falar. Ele ficou com seu brilhante argumento, eu com a minha encabulada dúvida.
Encabulada mas utilíssima, graças a ela em nenhum instante da longuíssima noite militar derrapei naquele ufanismo mofado e perigoso. Perigoso e horripilante. 
Noite longuíssima, mas não interminável. Mal ou bem, a ditadura estrelada ruiu, bem ou mal remontamos à democracia. E é em nome da democracia, regime avesso a todo dogmatismo, que eu aproveito a Páscoa, festa de ressurreição, para reerguer o sagrado estandarte da dúvida. Com direito a chiclete de hortelã.

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Duas frases sábias, tiradas do baú.
De dom Pedro Casaldáliga, bispo que se notabilizou por combater a ditadura: “Fernando Henrique (então presidente da República) era melhor quando era ateu.”
De uma sem-teto de São Paulo: “Se tiver dinheiro, vou comer, não vou pagar aluguel.”

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E, para concluir, a frase bem-humorada de um empresário, ao comunicar aos amigos, em jantar recente, que estava abandonando de vez a cocaína: “Ou a carreira ou as carreiras.”




sábado, 16 de abril de 2011

Mulheres zangadas

       Desci do táxi na esquina, caminhei para o prédio em que morava. Em frente, um ajuntamento me deteve. Havia dois carros da polícia e, forçando passagem entre os curiosos, cinco PMs conduziam três mulheres e um homem.
Das janelas em volta desciam aplausos, vaias e assobios, de súbito abafados por um instrumento de sopro, de som grave, a reproduzir cômica sequência de compassos. A multidão vibrou, um dos fardados empunhou o revólver, tentou descobrir onde se escondia o gozador. O instrumento silenciou, os detidos foram enfiados nos carros, menos uma das mulheres. Ela esperneava e gritava.
Os aplausos aumentaram, a rebelde recebeu um safanão, cedeu. Os policiais saíram de sirena ligada, catei o porteiro para saber o que acontecera. Não o avistei, mas a mulher sem testa do terceiro andar me percebeu curioso, me cercou.
- Aqueles quatro- contou – promoveram uma gandaia. Bebida, tóxico, libidinagem. Alguém chamou a polícia.
- E a polícia veio logo? – perguntei por perguntar.
- Veio. Aliás, o senhor não é jornalista? O seu jornal tinha que denunciar essa sem-vergonhice. Nossa rua, principalmente nosso quarteirão, se tornou a lata de lixo de Copacabana, que já é uma enorme lata de lixo.
- Vou falar com o chefe de reportagem – prometi.
A mulher se animou, desfiou queixas. Ouvi um bom tempo, pedi licença, subi. No dia seguinte, falei com o chefe de reportagem. Ele, no entanto, não se interessou. A sem testa, sempre que me encontrava – e me encontrava com frequência – cobrava.
- Você prometeu... – dizia cheia de reticências.  
Acabei lhe explicando que eu não mandava no chefe de reportagem, a última palavra era dele.
- A senhora me desculpe, fiz o que pude.
Ela não desculpou, passou a me virar a cara.


Isso aconteceu há anos. Meses depois, me mudei de Copacabana, nunca mais passei por aquela rua. Nunca mais, até a última quarta-feira. Nesse dia, de repente me vi diante do edifício em que tinha morado por três anos. E, junto da porta, a olhar o movimento, estava a mulher sem testa. Engordara um pouco e a espessa franja, que ia do alto da cabeça às sobrancelhas, dando-lhe um aspecto entre anedótico e sinistro, embranquecera.
Me aproximei simpático, como vai a senhora, se lembra de mim? Ela espremeu os olhos, me procurando na memória, em dois segundos me localizou. Levantou o dedo, ergueu-se na ponta dos pés.
- E não lembraria? Você prometeu uma entrevista e não cumpriu a palavra. Tratante. O que te traz aqui? Boa coisa não deve ser.
Me deu uma banana e entrou.

***

Eu estava sozinho no Lamas, uma mulher alta e magra, com restos de beleza, aproximou-se, puxou a cadeira à minha frente, sentou-se.
- Sim? – foi o que consegui falar.
- Vai dizer que você não está me reconhecendo?
- Desculpe, mas...
- Beatriz, cara. Esqueceu?
- Bem...
- Será que até você vai me achar chata?, que diabo.
- Por favor, eu...
- Não sou chata, compreenda, sou sozinha, eu e o Olavinho, que passou fome quando o Olavo sumiu, minha família não me socorreu, me castigou porque eu tinha ido viver com um homem casado que me trataria mal, é o que dizia meu pai, e o velho estava coberto de razão, o Olavo me quebrou, me convenceu a largar o emprego, boba eu, e não me dava afeto, me agredia e me rebaixava, e amaldiçoava minha barriga, o nosso fil...
Parou de estalo, arregalou os olhos.
- Caramba, você não é o Manoel.
- Não, não sou o Manoel.
- A cara dele, essa cara de doido.
Levantou-se, procurou outra mesa. Pediu um chope e me mostrou a língua. Quem manda eu ter cara de Manoel, e de Manoel doido?

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Eu nunca tive qualquer empatia com Persio Arida, presidente do Banco Central no Governo FHC, nem havia razão para isso. Na verdade, na única vez que o vi de perto, faz tempo, no calçadão de Ipanema ou do Leblon, achei-o uma figura fosca. Não posso, porém, deixar de recomendar o texto em que ele lembra sua participação na luta contra a ditadura militar, publicado pela revista piauí de abril, nº 55, (“Rakudianai”, o título). Corajoso, comovente, espontâneo. Leitura obrigatória para quem procura entender um pouco mais cada dia este país desconcertante.